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5 de fev de 2010

OFICINA IRRITADA – Carlos Drummond de Andrade



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, o mineiro nascido na pequena cidade de Itabira, fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma Poesia. Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma Poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Não se podia negar que ali se via um grande poeta, como poderia ser aquilatado nos livros que se seguiriam a este, como: Brejo das Almas, 1934; Sentimento do Mundo, 1940; A Rosa do Povo, 1945; Claro Enigma, 1951. Tais obras dariam a Drummond a posição de um dos maiores poetas brasileiro.
Segue o poema Oficina irritada, de Carlos Drummond de Andrade (in Andrade, Carlos Drummond de. Claro enigma. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1991, p. 42):



OFICINA IRRITADA


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara fazer.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrara: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.




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