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5 de out de 2012

[Conto] DALTON TREVISAN – A Pinta Preta da Paixão



                 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

DALTON TREVISAN passou a adotar o conto, no início dos anos 60, como o fizeram outros escritores brasileiros. Juntamente com Trevisan, destacaram-se, nesse gênero literário: Rubem Fonseca, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. O sucesso do conto, a partir essa época, deveu-se não apenas aos talentosos escritores, mas, também, por ser formatado em uma narrativa de no máximo 20 a 25 páginas, deixando para trás a histórias mais longas e caudalosas, como disse Italo Moriconi.
Sergius Gonzaga,  professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, menciona no seu livro Curso de Literatura Brasileira, os nomes mais importantes do conto do século XX:  Isaac Babel (russo), Katherine Mansfield (neozelandesa),  Ernest Hemingway (norte-americano), Jorge Luis Borges e Julio Cortázar (argentinos), os brasileiros Dalton Trevisan e Rubem Fonseca.
Segue o conto A pinta preta da paixão, de Dalton Trevisan, conto que integra o livro A trombeta do anjo vingador  (In Trevisan, Dalton. A trombeta do anjo vingador. 3ª ed.  Rio de Janeiro: Record, 1981, p. 64-67):


[ESPAÇO DO CONTO]
  
 A PINTA PRETA DA PAIXÃO
– DALTON TREVISAN

Casou com a moça bonita e pobre, forçada pelos pais. Escrivão, bom partido, vinte anos mais velho. De vingança, nos primeiros meses ela o enganou com o dentista. Não é do marido a filha única. Marca da traição, a vergonhosa pinta de beleza, canto esquerdo do lábio, no dentista como na menina.
Com o escândalo João mudou de cidade. Nunca mais foi visto com a mulher. Balançava as compridas pernas entre o cartório, o clube, a igreja. Na fila indiana dos filhos de Maria, larga fita azul no peito, rezando e cantando de mão posta. Como escrivão, o privilégio de segurar uma vara do pálio na procissão.
Ela, pecadora arrependida, uma vela acesa na mão, protegida do vento na concha branca de papel. Com os anos passou a usar óculo, que a enfeou. O nariz quem sabe maior. E, última prova da paixão, o dentinho de ouro.
Espirrando o pó dos autos, com dois dedos João batia a certidão na velha máquina, sem til nem cedilha, acrescentados em tinta roxa. Toda noite no clube, jogador aflito e sem sorte. Só levantava para ir ao banheiro, deixando o óculo sobre as cartas, ao lado do pratinho com rodelas de salame. Além de espiar-lhe as cartas, os parceiros esfregavam na lente a casca de salame.
De vez em longe examinados os autos pelo juiz, que o intimava a repor o dinheiro dos órfãos. Em desespero, recorria aos dois agiotas da cidade.
A filha Zezé cresceu, muito lindinha, mais parecida com o dentista. Apaixonou-se pelo Josias, que dela se aproveitou. Os pais não queriam o namoro. Ela se encontrava no beco escuro, à noite no cinema, até o campinho de futebol.
Abandonada pelo sedutor, ingeriu quinze comprimidos de aspirina. Não morreu, agora com tossinha nervosa que disfarça a dispepsia crônica. Sem amigas, repudiada pelas mães dos alunos, proibido o salão de baile. Guarda-pó dobrado no braço, transferida para a escola isolada no fundão. Sempre cativa do Josias, saudoso no saxofone da bandinha. Ela quem paga as prestações da fogosa moto vermelha. Só para vê-lo em nuvem de pó com outra na garupa.
Debaixo da porta João achou uma carta anônima. Datilografada, acusando a mulher de adúltera. E a filha bastardinha. Sem comentário, ele a deixou na cristaleira da sala, ao pé do elefante amarelo.
Muitas cartas chegaram, essas, pelo correio. Uma para o padre, narigão purpurino do abuso de vinho. Outras para os dois agiotas, prometendo as brasas vivas do inferno. Todas da velha máquina sem til nem cedilha.
Aposentado, careca, branco olho esbugalhado, João repartia-se entre o vício e a salvação. Sozinho à tarde na igreja, balbuciante, mão no rosto.
Se ele demorava além da meia-noite no clube, a negra enfiava a cabeça na vidraça quebrada:
– Dona Maria chamando.
Só para não deixá-lo ganhar.
Na tarde calmosa a dona comprou fio, agulha, botão. De volta, cambaleante no corredor do vizinho.
– Não me sinto bem.
Amparada até o sofá de palhinha.
– Sente, dona Maria. Que passa.
Suor frio, óculo embaraçado, negra boca torta.
– Um copo d’água.
Correu a vizinha com as gotas de coramina. Sentada quietinha, ouro faiscando no dente, apertava no peito os dois novelos azuis de lã.
No velório, de tão feio o velho parecia triste. O enterro com pequeno acompanhamento, ele ao lado da moça, maior a pinta no canto do lábio. Nem uma vez se abraçaram nem se deram as mãos.
Mesmo dia foi visto arrastando o sapatão pela praça.
– O João fora de casa. Sem guardar nojo. Não é esquisito?
– Alguma precisão.
A hora habitual quem entrava no clube para ocupar a cadeira diante do pratinho com rodela de salame?
– Agora posso jogar sossegado.
Desde essa noite a sorte mudou e, nos cinco anos que viveu, ganhador de mão cheia.
Do outro lado da rua seguem-no os piás boquiabertos e medrosos. Altão, guarda-chuva furado e de varetas quebradas, sacode os longos braços e fala sozinho. Sempre os bolsos inchados de pedras – ao vê-lo os cachorros apostam quem o morde primeiro.


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 REFERÊNCIA:
GONZAGA, Sergius.  Curso de Literatura Brasileira. Porto Alegre: Editora Leitura XXI, 2004, p. 28.
  
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PEDRO LUSO