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14 de jun de 2016

[conto] PEDRO LUSO – Uma noite trágica






         [ESPAÇO DO CONTO]


        UMA NOITE TRÁGICA
         – PEDRO LUSO DE CARVALHO




É noite. No quarto, às escuras, Juliana olha através da janela. As luzes da rua clareiam parte da cama, em desalinho, e alguns livros sobre o velho baú. Distrai-se olhando o relógio da praça, em frente, escondido entre as árvores, os ponteiros duplicados pelo efeito das sombras.
Juliana assusta-se ao ver, no relógio, que já passam das dez. Aí permanece por mais algum tempo, abatida, com a respiração escassa e o coração descompassado. Pressente que Orestes logo virá para cumprir a ameaça feita, dias atrás.
Não pode mais suportar a espera, com o tempo a passar tão lento. “Melhor será que tudo se resolva logo” – pensa Juliana. Na rua, o silêncio é quebrado pelo ruído de um carro que passa, sobre o asfalto molhado. Cansada, deita-se na cama, e segura com força os joelhos junto ao rosto, seu único refúgio.
Assusta-se com a forte batida na porta. Novamente o silêncio, no breu do quarto. Mais uma batida na porta, agora mais forte. Parece que a porta resiste. Depois, na fechadura, estridente barulho de metal. Em seguida, Juliana ouve a porta ranger, com o dano causado.
Passos lentos vêm em direção ao quarto. Ela pressente serem passos de Orestes, já à sua frente. Os passos cessam, e depois se faz pesado silêncio. De repente Juliana vê acima uma nesga de luz refletir-se na lâmina de um punhal, e mal ouve o som oco que causa, quando desce.



    *   *   *




31 comentários:

  1. Disfrutar de la noche porteña de Buenos Aires con un café y leerlo a usted es sublime estimado caballero, mis humildes felicitaciones, gran abrazo!.

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  2. E' sempre un piacere soffermarsi sulle tue originali e intense opere, Pedro
    Un caro saluto da Roma, silvia

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  3. ~~~
    Como diz a canção que Elis Regina imortalizou
    - «são coisas da vida, coisas do mundo...»

    O sangue frio da Juliana que não pede socorro,
    porque talvez pense que merece a punição.
    Um modo de tornar-se inesquecível...

    Muito bem contado, Pedro.
    Dias felizes de amor fiel.
    ~~Bj~~~~~~~~~

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  4. Opera originale che tiene il lettore in sospeso, molto apprezzata amico Pedro. Un caro saluto Grazia!

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  5. Caro Pedro: Com oito graus de frio no Rio de Janeiro, me arrepiei ainda mais com o desfecho de seu conto, ótimo e desafiador conseguiu mexer com minha curiosidade e meu feminismo, conformar-se com uma promessa de morte sem reagir, sem um som, sem fugir, sem se armar ! Qual o crime que esta mulher cometeu a ponto de se auto condenar a morte! Ah, amigo Pedro gostaria que contasses os motivos que levaram este homem a matar tão fria e calculadamente esta mulher, é também um desafio que lhe faço, e que amaria ler, pois sua criatividade é estimulante e maravilhosa.
    Grande abraço, Léah

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    1. Léah,
      É possível que a sua indagação seja semelhante a de outros amigos blogueiros, que fizeram os seus comentários a este conto, por isso esta minha resposta a você pode estender-se aos demais.
      Então, Léah, vamos à resposta:

      O motivo que levou Orestes a matar Juliana, da forma covarde como a matou, pode ter sido o ciúme, motivo que leva mulheres à morte pelos seus maridos, companheiros ou namorados, como vemos e ouvimos todos os dias pelos apresentadores de programas de TV e de Rádio, além dos jornais impressos ou digital.

      Quanto à sua curiosidade por Juliana não ter esboçado qualquer reação "com uma promessa de morte sem reagir, sem um som, sem fugir, sem se armar", respondo:

      Aí o contista socorre-se do que leu, do que está registrado na literatura, e assim, distanciado de qualquer realidade, imagina cenas que podem dar corpo à história. Então, Léah, nesse caso fala-se apenas de ficção, por mais agressivo que seja (ficção que também poderia ter sido usada para o final de uma bela história de amor).

      Por fim agradeço todas essas indagações, feitas neste seu comentário.
      Abraço, Léah.
      Pedro.

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  6. Pois é, Pedro, eu não entregaria minha vida assim, sem detonar uma bomba atômica! Ainda mais que, segundo li no Globo.com G1, 13 mulheres (em média) são assassinadas no Brasil por dia! Dá um mal-estar quando lemos coisas assim. Mas acontecem, mais real, mais verdadeiro, impossível!
    Mas a literatura é rica, retrata a realidade e mexe com o nosso sentimento de mulher e de preservação. Sem dúvida ainda vivemos numa cultura machista.
    Ótimo conto! É forte, mas real.
    Beijinho aqui do lado!

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  7. Muy actual tu texto, por desgracia.
    Así que rebobinemos para, por una vez, darle una oportunidad de justicia a Juliana:

    “ …Sabiendo la amenaza, al oír la primera señal de que forzaban la puerta, Juliana se levantó cogiendo el cuchillo carnicero de cortar chuletas que se había llevado a la cama y se situó con él junto a la puerta. Y al ver asomar la mano y la cabeza de Orestes…”

    Pues eso, una víctima menos.

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    1. Ana Mª,
      Claro que aceito que você reescreva o final do conto, para este seu comentário, “rebobinando a história para dar uma oportunidade de justiça a Juliana”, como você diz na sua língua.
      Então, o final fica assim:

      “... sabendo da ameaça, ao ouvir o primeiro sinal de que forçavam a porta, Juliana se levantou tomando sua faca de açougueiro de cortar chuletas que havia levado para a cama e ficou com ela junto à porta. E vendo enfiar a mão e cabeça de Orestes...
      Com isso, uma vítima a menos”.

      Aceitei com satisfação essa colaboração de Ana Mª Ferrin, de quem sou amigo há bastante tempo, para alterar o destino de Juliana para este seu simpático comentário.
      Abraço, Ana.

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    2. Ha sido un comentario hecho con todo respeto a un tema tan serio.
      Muy honrada de que lo hayas incorporado a la historia y de que por un día, aunque sea ficción, hayamos bajado el número de víctimas.
      Saludos.

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  8. Olá caríssimo dr Pedro, assim como Juliana espero meu algoz, pra mim o próprio tempo, para Juliana uma ameaça, como a vida, sempre nos ameaçando, a ser feliz, a ser triste, a ser...como Santiago às avessas, pois todos sabiam que ele iria padecer, menos o próprio, no caso da Juliana, ela sabe, se desespera e espera...como nós, aqui neste planeta, não tem saída, que se cumpra a profecia.
    Querido dr Pedro, acho que hoje consegui ver algo que me identificasse mais profundamente com este belo conto, tou lendo ele desde que foi postado rs (sou meio lesado rs), mas na verdade estava degustando, sentindo-o, como se deve fazer quando algo muito bom nos chega aos olhos, a mente e ao coração.
    ps. Meu carinho meu respeito e meu abraço.

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  9. Oi Pedro,
    Mesmo doente dos pés tenho duas mãos fortes devido a quatro anos de karatê, eu o deixaria chegar mais perto quebrava o punho dele e enfiava-lhe o punhal. Na justiça: defesa pessoa.
    Até qualquer dia
    Beijos
    Lua Singular

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  10. Hola Pedro, una vez más nos deleitas con tus escritos, me ha encantado de forma especial, me has trasladado a ese bello lugar.
    Un gran abrazo y feliz día.

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  11. Olá, Pedro
    Ao ler a última frase deste conto que parece tão surreal mas reflecte uma realidade cruel, fica a sensação de... "e agora"? Não se faz nada? Todos ficam de braços cruzados? Será este o papel da mulher? "Apanhar e calar"?
    São inúmeras as perguntas que surgem, mas as respostas... onde estão?
    Este debate daria "pano para mangas"...
    Gostei.


    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  12. Pedro Luso
    Uma fatalidade já esperada, nem por isso o conto deixa de prender o leitor, que não pode deixa de questionar-se: porquê?
    É esta palavra que deixa nos deixa agarrado.
    abraço

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  13. Historia breve, sublime y estremecedora.

    Saludos australes.

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  14. Um conto, que tem muito de real...
    Inúmeras mulheres serão vitimas de violência doméstica... e independentemente de terem feito algo ou não, que suscitasse tal fúria, por parte do agressor... nada justifica acabar-se com uma vida... mas infelizmente... ainda é isto que vigora, muitas vezes... tendo como base a lógica... se não és para mim, não serás de mais ninguém...
    Um conto que nos prende a atenção, da primeira à última palavra...
    Passando, por aqui, para agradecer a sua amável visita, em artandkits.blogspot.com no outro dia, e aproveitando para conhecer e me encantar com este belo espaço, dedicado à arte, e à escrita, soberbamente conjugados... e que será um prazer visitar futuramente!
    Abraço! Continuação de uma excelente semana!
    Ana

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  15. OI, Pedro...uma morte já sabida de antemão e a mulher se entrega passiva como uma condenada diante do carrasco...o que a impedia de fazer algo pela sua salvação?
    Um abraço

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  16. OI PEDRO!
    QUE TRISTE! UMA ESPERA ANGUSTIANTE DE ALGUÉM QUE JÁ SE ENTREGOU, ANTES DO MAL ACONTECER.
    LI DE UM FÔLEGO SÓ, MUITO BOM.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  17. Olá Pedro, mas uma bela trama de sua arte nestes contos,
    a respiração acelera, os olhos buscam o vazio, os sons se misturam.
    A lamina brilha e ficamos boquiabertos como num sonho.
    Perfeito amigo.
    Abraços.

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  18. Hola Pedro. Muy buena tu historia, escrita con suspense, casi he notado el miedo de la protagonista mientras esperaba el suceso.
    Parece ser que el miedo paraliza la acción para defenderse.
    Me gustó mucho como lo has desarrollado.
    Un abrazo.

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  19. Abençoado dia!!!!!!!!! Beijos

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  20. Una historia muy buena. Besitos.

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  21. Boa noite, Pedro, seu conto é triste, mas muito interessante,pois assemelha-se à realidade, na qual vivemos. Os acontecimentos da vida real são quase que cópias do que escreveu. Juliana,esperava pela punição que Orestes já havia anunciado em algum dia... será que sabia que seria desta forma? Estranhei a reação dela ou melhor a falta de reação, sequer pensou em salvar a vida, seu conto é fabuloso, a gente já quer dar palpites, rssssssssss. Abraço!

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  22. ¡¡Ay!! Que miedo amigo Pedro. Pobre señora y pobre los y las que se encuentran en estas situaciones.
    Espero que nos cuentes algo más romántico la próxima vez y sobre todo que no acabe en tragedia.
    Buen fin de semana y recibe un fuerte abrazo desde Madrid.

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  23. Um belo texto meu amigo e é curiosos por causa da pintura de Modigliani ainda ontem à noite vi na televisão portuguesas um belo programa sobre este famoso pintor.
    Um abraço e bom fim de semana.

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  24. Excelente seu conto, narrativa muito expressiva em cenas
    (bem construídas), mas é inadmissível esta violência
    e a submissão e subjugação da mulher para morrer...
    O pior é a estatística destes crimes hediondos.
    Abraço, excelente Contista!

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  25. UFFFFFFFF. EXCELENTE IMÁGENES!!!!
    ABRAZOS

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  26. Boa tarde Pedro.
    Infelizmente a sua historia é a realidade de muitas mulheres, muitas sentem, sabem que estão sofrendo risco de serem assassinadas e apenas aceitam esse destino. Nunca intendi o porque. Um homem se assim pode ser chamado esses assassinos são covardes, mas e a mulher que não reage, que aceita e continua a morar com um elemento desse é o que ? Muitos chamam de vitimas, ate acho que são, mas também se deixam serem paralisada, tem que ter coragem e lutar pela vida e pela felicidade. Se eu fosse a Juliana do seu conto, na primeira investida dele de ameaça, já daria outro fim a essa historia rsrs. Um abençoado sábado. Abraços.

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  27. Hola Pedro.
    Si querías que sintiéramos su angustia y miedo en esa larga esper, lo has conseguido.
    Trágica noche en verdad ha sido, angustiosa hasta el final.
    Un abrazo.
    Ambar

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  28. Te dejo mi blog de poesia por si quieres criticar gracias.
    Me gusta mucho el tuyo.
    http://anna-historias.blogspot.com.es

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PEDRO LUSO