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27 de out de 2012

[Conto] JOÃO GUIMARÃES ROSA – Bicho Mau



 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

JOÃO GUIMARÃES ROSA nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, a 27 de junho de 1908 (ano em que falece Machado de Assis, o nome mais importante da literatura brasileira); morreu em 19 de novembro de 1967, três dias depois de ter tomado posse na Academia Brasileira de Letras.
Guimarães Rosa foi médico, e exerceu a profissão por pouco tempo no interior de seu Estado; depois, aprovado em concurso público no Itamarati, ingressou na Diplomacia e serviu em Hamburgo, Bogotá e Paris. Estreou na literatura em 1946, com o livro de contos: Sagarana.
Obra de inegável valor, tanto suas novelas, Corpo de baile, ou Grande Sertão:Veredas, o único romance do escritor, e sua obra-prima; também os contos que compõem Sagarana, como os contos que compõem Primeiras Estórias, Tutaméia, Estas Estórias e Ave, Palavra – os dois últimos surgidos postumamente.
Guimarães Rosa teve sua obra reconhecida somente dez anos depois de seu primeiro livro, quando foram lançados, quase simultaneamente, o ciclo de novelas: Corpo de Baile, e Grande Sertão: Veredas. A partir de então, foi a glória.
Sobre o escritor mineiro, encontramos no verbete Guimarães Rosa, do Kogan Larousse, com a direção de Antônio Houaiss, este pequeno texto: “Notável pelo ineditismo vocabular e fraseologia eminentemente lúdica. A um só tempo neológica e arcaizante, regional e cultista, mas sempre impregnada de forte carga estética (...)”.
Segue o trecho final do conto Bicho mau, que integra o livro Estas Estórias, de Guimarães Rosa (In Estas Estórias. João Guimarães Rosa. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. P. 217-218):

 [ESPAÇO DO CONTO]

BICHO MAU (trecho)
– JOÃO GUIMARÃES ROSA

Um dia, justo, justo, em sol e hora, depois do enterro de Seo Quinquim, outro acontecimento calamitara a casa e a gente da fazenda. Virgínia, com o sofrer de muitas dores, tinha tido uma criança morta. Ela mesma permanecia igual a uma morta, em funda sonolência, na cama, no quarto, no escuro. Tão longe afundada, tão longemente, que os outros sentiam sua presença pela casa inteira, de um modo que os inquietava, pareciam mais humildes. Aquilo não era uma doença corporal, que desse apenas os graves cuidados. Era um quieto viajar, fazia outras distâncias, temia-se-lhes a estranhadez da loucura – era alguma coisa que ela aceitava. Trouxeram o médico, um moço de fora.
Nhô de Barros teve que conversar muito com ele. Ele quisera saber mais, sobre Seo Quinquim e a cobra, a picada. Dizia que o soro não podia deixar de salvar o rapaz; a não ser se tivesse sido atingido numa veia; mas, se fosse numa veia, teria sido fulminante. Ora Seo Quinquim durara ainda muitas horas... Não teriam, acaso, dado ao doente algum remédio de curandeiro? Garrafadas, calomelano com caldo de limão? Sabia-se que era mantido, ali, na fazenda, como agregado, um desses, charlatão... – “É um velho, um coitado. Dá-se casa p’ra ele morar, e três alqueires, p’ra plantar, à terça... Ou teria sido outra qualidade de cobra? Teriam reconhecido bem a cascavel?”
– “Sim senhor, seu doutor. Isto sim, algum engano era capaz que tivesse havido. Mas era cascavel mesmo, mesma, ela tinha mudado de novo, estava bem repintada, tinha chocalho, um cornimboque de quatorze campanhiazinhas, só...”

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PEDRO LUSO