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6 de jun de 2010

ANTOLOGIA – Carlos Drummond de Andrade





PEDRO LUSO DE CARVALHO

Em entrevista concedida a Homero Senna (in Carlos Drummond de Andrade, Edição Crítica 1) Carlos Drummond responde à pergunta feita por Homero Senna, qual seja: “Como se fez escritor?”:
– Não sei, nunca poderei saber. Nem sei mesmo se sou escritor, Todo mundo que aprendeu a ler e a escrever é mais ou menos escritor. E é tanto mais quanto menos procure dar ao que escreve o tom de literatura. Porque observe que esta se revela onde não é posta e recusa-se a aparecer onde querem pô-la. Ou por outra: julgo que a literatura tem muito menos de intencional do que se imagina. Grandes livros se fizeram com memórias e seleções de cartas particulares, absolutamente despidas de preocupação literária. Até livros de ficção ou poesia, escritos por desfastio, e secretamente, foram depois atingidos pelo favor da crítica ou do público. Não vejo, assim limite ou contorno estabelecido pela personalidade do escritor. A vocação literária, como lhe chamamos, pode ser considerada, apenas, numa inclinação maior para para o exercício a que todos uma vez ou outra nos dedicamos, que é o de escrever com aparente desinteresse, isto é, sem fim prático. Mas até esta definição é precária, pois hoje o literato não não só se faz e se quer muito interessado, do ponto de vista social e político, como ainda as condições do mercado o tornam “interessado” economicamente, isto é, o situam numa nova profissão, a de escritor, e lhe determinam uma produçõao ao gosto do público, mais ou menos como a da roupa, dos objetos elétricos, de tudo que se compra e vende por aí… Não sei se me fiz, nem se sou escritor.Às vezes gosto de escrever.Às vezes (quase sempre) não gosto. Escritor intermitente, no máximo.
Segue o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Antologia (in Menino antigo. Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974, p. 119):


ANTOLOGIA
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Guardo na boca os sabores
da gabiroba e do jambo,
com a fragrância do mato
colhida ao pé. Distintos.
Araticum, araçá,
ananás, bacupari,
jatobá… todos reunidos
congresso verde no mato,
e cada qual separado,
cada fruta, cada gosto
no sentimento composto
das frutas todas do mato
que levo na minha boca
tal qual se me levasse o mato.



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