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30 de set de 2012

CAMUS, Albert / A Noite da Verdade




[ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]

  
        No ano de 1940 a França foi tomada pelas tropas alemãs, de Adolf Hitler. Os alemães ocuparam Paris no período que compreende o dia 14 de junho de 1940 ao dia 25 de agosto de 1944.
  
Quanto à atuação de Albert Camus no Movimento da Resistência, nesse período de dominação alemã, sabemos que o seu ingresso deu-se em 1941, e que o escritor tinha como atribuições a atividade de jornalista e de coordenador de um setor de informações militares, vinculado ao grupo “Combat”.

 Assim, Camus passa a viver, em parte, na clandestinidade, tendo os cuidados a ela inerentes, tais como: reservas, cautela, astúcia, aparentes normalidades, etc.
  
Sobre a Resistência, Jean-Paul Sartre viria escrever mais tarde: “Nada do que eu esperava durante esse tempo (a ocupação) a França – com exceção do Movimento de Resistência – nem sempre demonstrou grandeza de conduta. Mas é preciso lembrar que a resistência ativa tinha de limitar-se, forçosamente, a uma minoria. E eu creio que essa minoria, ao aceitar o martírio conscientemente e sem esperança, mais do que redimiu a nossa fraqueza”. [Sartre, resistente, em France, Libre, 1944]. 
               
Inspirado nesse período em que a França esteve entregue às forças alemãs, Albert Camus escreveu Cartas a um amigo alemão (“Lettres à une ami allemand”), em 1945; e Atuais. Crônicas da atualidade (“Actuelles”), em 1950; o livro, com as duas peças, foi originalmente publicado em Paris pela editora Gallimard. 
Cidadão francês chora quando Hitler
 invade a França
  
Segue a crônica de Albert Camus intitulada a A Noite da Verdade, que integra a segunda parte de Cartas a um amigo alemão (“Lettres à une ami allemand”), qual seja: Atuais. Crônicas da atualidade (“Actuelles”), p. 101-105, que foi originalmente publicada no jornal “Combat”, em 25 de agosto de 1944, como segue: 


[ESPAÇO DA CRÔNICA]


A NOITE DA VERDADE
(Albert Camus- ‘Combat’, 25.8.44)

ENQUANTO as balas da liberdade continuam a assobiar na cidade, os canhões da libertação atravessam as portas de Paris por entre gritos e flores. Durante a noite mais bela e mais quente de todas as noites de Agosto, no céu de Paris as balas tracejantes confundem-se com as estrelas de sempre, com o fumo dos incêndios e com os foguetes multicores da alegria popular. Com esta noite sem par acabam quatro anos de história monstruosa e de luta indescritível, em que Paris se debateu com a vergonha e a raiva.

Os que nunca desesperaram de si próprios nem do país encontraram neste céu a recompensa. Esta noite vale um mundo, é a noite da verdade. A verdade armada e que combate, a verdade armada depois de ter sido durante tanto tempo a verdade desarmada e estado com o peito descoberto. Ela está em toda a parte, nesta noite em que o povo e o canhão troam ao mesmo tempo. Ela é a própria voz do povo e do canhão e tem o rosto triunfante e cansado dos combatentes da rua sob os gilvazes e suor. Sim, é bem esta a noite da verdade, e da única válida, a que consente em lutar e vencer.

Há quatro anos que homens se ergueram de entre as ruínas e o desespero e afirmaram tranquilamente que nada estava perdido. Eles disseram que era preciso continuar, que as forças do bem podiam sempre vencer o mal, sob a condição de pagarem o preço. Eles pagaram o preço. E sem dúvida o preço foi a peso de ouro, tinha o peso do sangue, o horrível peso das prisões. Muitos desses homens morreram, outros vivem há anos entre muros cegos. Era o preço a pagar. Mas mesmo esses homens, se o pudessem, não ficariam chocados com esta terrível e maravilhosa alegria que nos invade como uma maré. Porque esta alegria não lhes é infiel. Ela justifica-os, pelo contrário, e diz que tiveram razão. Unidos no mesmo sofrimento durante quatro anos, continuamos unidos no mesmo entusiasmo, ganhamos a nossa solidariedade. E apercebemo-nos com espanto nesta noite comovente,  que durante quatro anos nunca estivemos sós. Vivemos os anos da fraternidade.

Outros combates nos esperam ainda. Mas a paz voltará a esta terra desventrada e aos corações torturados pela esperança e pela recordação. É impossível viver continuamente do crime e da violência. A felicidade, e a ternura que merecemos, virão por sua vez. Mas esta paz não nos fará esquecer. Jamais alguns de nós esquecerão o rosto de nossos irmãos ensanguentado pelas balas, nem a grande e viril fraternidade destes anos. Que os nossos camaradas mortos conservem esta paz prometida na noite ofegante e que já tinham conquistado. O nosso combate será o deles. Nada é dado aos homens gratuitamente e o pouco que podem conquistar é pago com mortes injustas. Mas a grandeza do homem não está aí. Ela está na decisão de ser mais forte do que a sua condição. E se a sua condição é injusta, só tem uma maneira de a ultrapassar, que é a de ser justo ele mesmo. A nossa verdade desta noite, a verdade que paira neste céu de Agosto, é justamente a consolação do homem.  A paz do coração, que era também a dos nossos camaradas mortos, é poder dizer, em face da vitória, com um espírito inalterável e desprovido de reivindicações: “Fizemos o que tínhamos que fazer”.


 *  *  *


5 comentários:

  1. Houve uma necessidade de dizer "amigo alemão".
    Fico encantada com a forma dele descrever uma guerra.
    beijos!!

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    1. Janice,

      Camus era, sem dúvida, um escritor extraordinário.
      Obrigado por sua visita e comentário.

      Abraços,
      Pedro.

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  2. Olá Pedro.
    Quando se tem um grande sentimento o artista descreve os fatos de forma brilhante e com tamanha suavidade narra um enredo violento. Um texto primoroso. Um abraço
    Gracita

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  3. Tens uma equipe de peso ao teu lado!!! A grande maioria já li algumas obras e poucos desconheço.
    Volto durante o dia para ler. Obrigada por aderir ao meu blog.
    Um abraço!

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  4. Obrigado, Pedro, pelo seu texto. Creio que a reflexão de Camus, sem muita dificuldade, pode ser aplicada à ocupação a que nos submetemos e guerra suja a que testemunhamos hoje: de amoralidade, de desprezo à ética, de repúdio à autoridade, de menosprezo ao direito é à justiça.
    Abraço

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PEDRO LUSO