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5 de jan de 2010

FRAGA E SOMBRA - Carlos Drummond de Andrade




PEDRO LUSO DE CARVALHO


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE fez sua estreia em livro no ano de 1930, com Alguma poesia, Nessa obra, o poeta reuniu trabalhos que havia começado a produzir a partir de 1925. A crítica literária e o público leitor recebeu o livro (Alguma poesia) com forte reação, quer de elogios quer de contrariedade.
Em que pese pudesse ser notado na obra alguns modismos que eram advindos do modernismo, um fato não podia ser negado: ali via-se um grande poeta, como poderia ser aquilatado nos livros que se seguiriam a este, como: Brejo das almas, 1934; Sentimento do mundo, 1940; A rosa do povo, 1945; Claro enigma, 1951. Tais obras dariam a Drummond a posição de o maior poeta moderno brasileiro.
Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade de Itabira, Minas Gerais, a 31 de outubro de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de agosto de 1987.
Escolhi para esta postagem Fraga e sombra, soneto de Drummond, (In Claro enigma / Carlos Drummond de Andrade. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1987, p. 54), como segue:


FRAGA E SOMBRA
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



A sombra azul da tarde nos confrange.
Baixa, severa, a luz crepuscular.
Um sino toca, e não saber quem tange
é como se este som nascesse do ar.


Música breve, noite longa. O alfange
que sono e sonho ceifa devagar
mal se desenha, fino, ante a falange
das nuvens esquecidas de passar.


Os dois apenas, entre céu e terra,
sentimos o espetáculo do mundo,
feito de mar ausente e abstrata serra.


E calcamos em nós, sob o profundo
instinto de existir, outra mais pura
vontade de anular a criatura




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