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8 de jun de 2011

[Conto] O RETRATO OVALADO – Edgar allan Poe




                      
                                                O RETRATO OVALADO


        O castelo cujas portas meu valete decidiu-se a forçar, para não permitir que eu, terrivelmente ferido como me achava, passasse a noite ao relento, era um desses grandes amontoados de pedra que misturam o lúgubre e o senhoril, os quais por tantos séculos dominaram sobre os Montes Apepinos,¹ como se fossem rostos de cenho franzido, não menos na realidade que nas fantasias de Mrs. Redcliffe.² Aparentemente tinha sido abandonado há pouco tempo e em caráter temporário. Estabelecemo-nos em um dos apartamentos menores e menos suntuosamente mobiliados. Ficava em um dos torreões mais remotos do edifício. Sua decoração era rica, se bem que esfarrapada e mais velha do que a antiga. Suas paredes estavam recobertas de tapeçarias e enfeitadas de troféus e armaduras numerosos e de todas as variedades que se podia imaginar, de mistura com um número fora do comum de quadros modernos de grande inspiração, montados em molduras inriquecidas por arabescos dourados. Nestas pinturas, que pendiam das paredes, não somente nos pontos de destaque, mas em todos o escaninhos e nichos que a bizarra arquitetura do palácio tornava posíveis – justamentes nestas pinturas, talvez por influência de meu incipiente delírio, fiquei profundamente interessado; assim mandei que Pedro (esse era o nome de meu valete) fechasse os pesados postigos do quarto, pois já era noite, acendesse os círios de um alto candelabro que se erguia junto à cabeceira de minha cama e abrisse de par em par as cortinas franjadas de veludo negro que protegiam o próprio leito. Desejei que tudo isso fosse feito para que, se eu não pudesse dormir, pelo menos pudesse altenar meu olhar na contemplação destes quadros e no exame de um pequeno volume que já se encontrava sobre o travesseiro no momento em que chegamos e que parecia conter a descrição e a história das obras de arte exibidas no castelo.

        Li por um longo, longo tempo e contemplei os quadros em plena devoção e recolhimento. As horas transcorreram gloriosa e rapidamente, até que chegou a solene e profunda meia-noite. A posição do candelabro me desagradou e, estendendo o braço com uma certa dificuldade, porque não queria perturbar meu criado, que dormia profundamente e deveria estar muito cansado, desloquei-o de modo a que os raios caíssem mais diretamente sobre o livrinho.

        Mas a ação produziu um efeito totalmente inesperado. Os raios das numerosas velas (pois o candelabro tinha muitos braços) projetavam-se agora para dentro de um nicho da parede fronteira que até aquele momento tinha permanecido na profunda sombra produzida por uma das colunas da cama. Deste modo, passei a contemplar, destacado vivamente pela luz, um quadro que não havia percebido antes. Era o retrato de uma jovem justamente naquela idade em que a adolescência dá lugar à feminilidade. Olhei apressadamente para o quadro e então fechei os olhos. A princípio não ficou aparente nem para mim mesmo porque fizera aquilo. Mas enquanto minhas pálpebras permaneciam fechadas, minha mente examinou velozmente todas as razões possíveis para o que havia feito. Fora um movimento impulsivo, destinado exatamente a ganhar tempo para pensar, para garantir que minha visão não me tinha enganado, para acalmar e controlar minha fantasia até que pudesse lançar à pintura um olhar mais sóbrio e mais seguro. De fato, assim que se passaram alguns momentos, pus-me a observar fixa e penetrantemente a obra de arte.

        Agora não podia e nem queria mais duvidar de que estava vendo perfeitamente, pois o primeiro clarão dos círios sobre a tela tinha aparentemente dissipado o estupor de pesadelo que estava tomando conta de todos os meus sentidos e me trouxera de volta para a vida real.

        Como já relatei, era o rosto de uma jovem. Mostrava somente a cabeça e os ombros, e o todo fora executado naquele estilo que tecnicamente é chamado de vinheta, bastante semelhante ao estilo favorito de Sully, ³ adotado na representação de cabeças humanas. Os braços, o peito e até mesmo as pontas dos cabelos de um brilho irradiante escorriam imperceptivelmente para a vaga e profunda sombra que formava o fundo do óleo. A moldura era ovalada, ricamente dourada e trabalhada em filigrana no estilo mourisco. Considerada somente como obra de arte, nada podia ser mais admirável que a própria pintura. Mas não poderia ter sido a execução magistral do retrato, nem a beleza imortal da fisionomia que me haviam impressionado de maneira tão súbita e veemente. E menos ainda seria possível que minha imaginação, sacudida de sua modorra e devaneio, tivesse confundido a cabeça com a de uma pessoa viva. Vi imediatamente que as peculiaridades do desenho, da técnica de vinhetagem e da própria moldura que o circundava deveriam ter de imediato desfeito essa idéia; de fato, nem sequer permitiriam que minha imaginação exaltada se deixasse levar por esse tipo de encantamento. Refletindo seriamente sobre estas questões, permaneci, quase por uma hora, meio sentado e meio reclinado, com a visão voltada fixamente para a representação do rosto da jovem. Finalmente, satisfeito por haver encontrado o verdadeiro segredo daquele efeito, aconcheguei-me na cama. Tinha chegado à conclusão de que o feitiço ilusório da pintura era provocado pela expressão do rosto do modelo, que era absolutamente viva e real. Fora aquilo que primeiro me espantara, depois me confundira, subjugara e finalmente me assustara. Com um profundo respeito reverente, repus o candelabro em sua posição inicial. Agora que a causa de minha profunda agitação estava afastada de minha vista, busquei ansiosamente o volume que discutia os quadros existentes no castelo e suas respectivas histórias. Voltando as páginas até o número que designava o retrato ovalado, li as palavras estranhas e um tanto vagas que transcremos a seguir:

        “Ela era uma donzela da mais rara beleza, tão alegre quanto era linda. Maldita foi a hora em que ela conheceu, amou e desposou um pintor. Ele era apaixonado, estudioso, austero e sua verdadeira noiva era a Arte; ela, uma jovem de extrema formosura, tão adorável como cheia de jovialidade; cheia de luz e sorrisos, tão ágil como uma jovem corça; amando e acariciando todas as coisas; odiando apenas a Arte, em que cedo descobriu uma poderosa rival; detestando somente os pincéis, a paleta, as raspadeiras e outros instrumentos que a privavam de contemplar o rosto de seu amado. Uma coisa terrível se passou: pensando em conciliar seus dois amores, o pintor mencionou seu desejo de retratar o semblante da moça. Esta era humilde e cordata e posou obedientemente, por muitas semanas, no aposento escuro e elevado que se localizava no alto de um dos torreões deste castelo, onde toda a luz provinha de uma clarabóia que iluminava diretamente a pálida tela. Porém ele, o pintor, só tinha olhos para a glória do retrato e prendia-se a ele de hora em hora, dia após dia, esquecendo-se do modelo. Como era um homem agrilhoado a uma vasta paixão, cheio de sentimentos selvagens e tumultuosos, perdeu-se nos devaneios da criação a um ponto em que não pôde e nem mesmo quis perceber que a luz, ao tombar tão sinistramente naquele torreão solitário, extenuava o espírito e enfraquecia a saúde de sua esposa, que murchava de uma forma visível para todos, salvo ele próprio. Todavia, ela continuava sorrindo todo o tempo, sem que a menor queixa brotasse de seus lábios, porque a pose assim o exigia; mas principalmente porque ela via que o pintor (que gozava de grande reputação) sentia um prazer doido e ardente em sua tarefa e absorvia-se dia e noite a fim de captar a beleza daquela que tanto amava, mas que a cada dia se tornava mais lânguida e fraca. Sem a menor dúvida, aqueles que contemplavam o retrato inacabado falavam da semelhança em tons respeitosos, como se fosse uma espantosa maravilha, uma prova não tanto do poder técnico do pintor como de seu profundo amor por aquela que captava tão perfeitamente bem. Porém, finalmente, à medida que o labor se aproximava de sua conclusão, a ninguém mais foi permitido a entrada no torreão, pois o pintor estava enlouquecido pelo ardor de sua obra e raramente tirava os olhos da tela, mesmo para olhar a fisionomia de sua esposa. E ele não queria ver que as cores que espalhava sobre o quadro eram retiradas das faces daquela que se assentava a seu lado. Após a passagem de muitas semanas, quando muito pouco restava a fazer, salvo uma pincelada na boca e o retoque em um dos olhos, o espírito da dama novamente palpitou como a chama junto ao castiçal e prestes a extinguir-se. E então foi dada a pincelada e o derradeiro toque de sombra colocado no lugar devido; por um momento, o pintor permaneceu em seu transe contemplando a obra que havia terminado; mas, no instante seguinte, enquanto ainda contemplava a reprodução do rosto de sua esposa, percebeu um tremor e uma súbita palidez percorrerem-lhe a face e, num misto de terror e êxtase, proclamou em alta voz: 'Esta é a Vida! Sem dúvida é a própria vida que aprisionei na tela' – e, ao voltar-se subitamente para contemplar sua amada – Eis que ela está morta!” 



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¹ Cadeia Montanhosa que corta a Itália, da Ligúria à Calábria e se prolonga até a Sicília. (N. do T.)
² Anne Ward Radcliffe, 1764-1823, escritora inglesa, autora de romances “góticos” de grande sucesso em seu tempo. (N. do T.)
³ Thomas Sully, 1783-1872, nascido na Inglaterra, mas considerado um pintor americano, paisagista e retratista. (N. do T.)


                                                                               * * *


        O conto O retrato ovalado integra o livro A carta roubada e outras histórias de crime e mistério, de Edgar Allan Poe, Tradução de William Lagos. Porto Alegre: L&PM POCKET, 2003, p. 146-151.

        EDGAR ALLAN POE nasceu a 19 de janeiro de 1809, em Boston, EUA, e morreu no dia 7 de outubro de 1849, em Baltimore, EUA, aos 40 anos. Foi poeta, contista e ensaísta. As histórias de Poe estão repletas de mistérios. É tido como um dos precursores do conto policial com Os assassínios da Rua Morgue, escrito em 1841.

        Para saber um pouco mais da vida e da obra desse gênio atormentado, basta clicar em: EDGAR ALLAN POE – Antologia de Contos.






2 comentários:

  1. Obrigado, Pedro, por ressuscitar o Poe em suas páginas. Eu tinha lido esse conto fantástico havia muito tempo. A releitura renovou minha admiração por esse extraordinário escritor. O conto seduz, prende a atenção de maneira incrível. O desfecho, bem, o desfecho é arrasador.
    Abraço,
    Gabriel

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  2. Muy interesantes y entretenido. Buena temática.Un saludo fraterno amigo.

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PEDRO LUSO