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5 de jun de 2016

[Conto] PEDRO LUSO – Na vida de um médico




[ESPAÇO DO CONTO]


NA VIDA DE UM MÉDICO
  – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Os estalidos da janela acordam o médico. No inverno, o vento minuano sopra com violência nessa região, próxima à Argentina. Tateia no escuro para apanhar o relógio sobre a mesinha de cabeceira. Seis horas. Esfrega os olhos e se levanta. “Vou chegar ao hospital antes das oito”.
O médico caminha encolhido, defendendo-se do vento frio. Uma réstea de luz atravessa a densa neblina. O sol ainda custará a aparecer. Uma mulher cruza a rua, coberta por grossa manta. Passa de cabeça baixa. No seu trajeto, o médico não vê mais viva alma. A cidadezinha parece estar desabitada.
Ao chegar ao hospital, empurra o portão da velha cerca, prestes a cair. Sobre o seu terreno, latinhas vazias e sacos plásticos movem-se desordenados, pela força do vento. “Aonde eu vim me meter!” – lamenta-se o médico. A enfermeira aguardava por ele:
Que bom que o senhor chegou, doutor Leôncio!
Apressa-se para contar-lhe que o capataz de uma fazenda da redondeza foi baleado no pescoço, e está passando mal. Explica que o homem chegou há pouco tempo, trazido pela mulher e pelo filho. O médico diz-lhe que quer vê-lo.
Vamos por aqui, doutor.
Na sala de emergência, deitado sobre a cama e coberto apenas por um lençol, o homem ferido. No pescoço, uma mancha de sangue. Doutor Leôncio curva-se sobre ele, para examiná-lo:
O que aconteceu amigo?
Um tiro, doutor!
Doutor Leôncio segura o pulso do homem para ver como estão os batimentos cardíacos. “A bala transfixou o pescoço do pobre homem”, pensa. A enfermeira comunica-se com outro hospital, pedindo auxílio. “A ambulância já está indo”, comunica uma voz, no outro lado da linha.
Doutor Leôncio e a enfermeira permanecem ao lado do homem ferido, enquanto aguardam pela ambulância. A longa espera faz com que o médico se envolva com as boas lembranças dos amigos, dos quais recebia conselhos para não deixar a capital.
Havia passado um longo tempo, quando a enfermeira veio dizer-lhe que a ambulância havia chegado. Doutor Leôncio levanta-se e pede ao motorista para ajudá-lo a colocar o homem sobre a maca. O veículo parte para a cidade vizinha.
O médico e a enfermeira permanecem ao lado do homem ferido. Doutor Leôncio mantém-se atento às suas pulsações. Não demora muito para ver que os olhos do homem ficaram opacos. A enfermeira assusta-se:
Meu Deus, doutor, parece que ele morreu!
Doutor Leôncio leva a mão estendida aos olhos do homem e os fecha. Pega suas mãos frias e as junta sobre o peito, uma sobre a outra. Depois faz um sinal ao motorista, que leva o veículo para o acostamento da estrada.
Vamos voltar, o homem está morto – diz o médico.
Doutor Leôncio e a enfermeira passam para o banco da frente da ambulância, junto ao motorista, que parte em baixa velocidade. O médico fixa os olhos na estrada interminável, e não diz mais nenhuma palavra. O motorista e a enfermeira respeitam o seu silêncio.


* * *


35 comentários:

  1. O médico estava diante da impotência...Ter vontade de algo fazer e faltarem as condições...Aliás, isso muito comum, não? Pena! Lindo conto! abraços, chica

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  2. Un racconto intenso, carico di espressività, nella sua speciale e bella lettura...
    Buon inizio di settimana e un saluto, Pedro,silvia

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  3. Un bella historia un final irremediable, cuando llama a la puerta, es el final.
    Me ha encantado leerte Pedro, todo un placer.
    Feliz semana.
    Un abrazo.

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  4. Triste final, cuando ya casi estaba a punto de ser salvado.
    Salu2.

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  5. Muy buena descripción de los sentimientos de impotencia que soportan muy frecuentemente los médicos.
    Un abrazo

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  6. Un racconto che rispecchia la vita del medico che spesso si trova davanti a morte improvvisa. Un racconto ben descritto che arriva al lettore, complimenti Pedro. Buona serata, Grazia

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  7. Me ha gustado tu relato y ¿Sabes una cosa? Pues que estoy aprendiendo tu lengua que la encuentro muy fácil.
    Un abrazo

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  8. Um conto que consegue com palavras comedidas expressar toda a dor da impo tência que passa pela vida de um médico ao se deparar com a precariedade dos recursos de que dispõe.Quantos por esse Brasil tão grande e tão carente!
    Um abraço

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  9. Pedro, esse teu ótimo conto, mostra um médico com idealismo que se depara com um quadro bem realista: a precariedade, a sujeira e o abandono em que se encontram os hospitais públicos no Brasil, sem ambulâncias, sem curativos e faltando o essencial, o básico. Nada mais é do que um deboche por parte dos governantes. Não acredito que nossas autoridades sejam cegas a esse ponto. Mas nos hospitais 'Top', nada falta.
    Falta é seriedade com algo que deveria ser visto como prioridade. Mas não, parece que prioridade é o que diverte o povo, com o luxuosos estádios de futebol que foram usados apenas para uma partida na última Copa.
    Pão e circo ao povo, me parece que ainda está na moda... O silêncio do médico Leôncio, diz tudo. Tudo o que o povo brasileiro pensa.
    Beijinho!

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  10. Pedro

    O título da peça diz tudo, quando o médico é de sensibilidade. De qualquer modo estamos perante uma fição bem conseguida. O conto tem todos os ingredientes para prender o leitor.
    Abraço.

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  11. Buen profesional y de gran corazón Leoncio. Pero ante lo inevitable y la falta de recursos, silencio.
    Un abrazo y buena semana.

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  12. Un relato muy bien escrito, con la brevedad del microrelato, que en pocas palabras trasmite al lector esa situación tremenda de la impotencia de un médico que quiere salvarle vida y no ha sido posible.
    Felicitaciones.

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  13. Qué no habrá visto Don Leoncio en su profesión rural… Las muertes inútiles, la desesperanza…
    Cuántas veces se habrá lamentado a solas por la ingenuidad de aquel joven médico que, soñando con cambiar el mundo, insistió en venirse desde la capital a este lugar olvidado, donde el viento minuano bate los cristales. ¿Para qué se vino? ¡Para qué!
    Quizá para que su mano amiga sostenga la de ese hombre en sus últimos momentos, la deslice sobre sus párpados y cierre sus ojos.

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  14. Um belo conto meu amigo em que relata todos os dramas hospitalares passados numa pequena cidade.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

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  15. Lindo dia!!!!!!!!!!!!! Beijos

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  16. Amigo Pedro, a vida de médico não é nada fácil e mesmo com todas as condições por vezes acontece o mesmo. Gostei muito. Beijos com carinho

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  17. o dr. Leôncio com tais silêncios ainda acaba por virar poeta. ou ficar maluco...
    ou as duas coisas...

    maravilha teu texto, Pedro.

    forte abraço

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  18. Pedro,

    Um conto excelente, admirável a limpidez da sua literatura!
    Realmente muito precário as condições físicas da saúde pública
    e quando soma com a desumanidade do Médico, ainda bem que este
    Médico do seu conto não perdeu o sentir humano e silencia a
    morte de um indivíduo com respeito.
    Abraço.

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  19. Un relato muy real y conmovedor.

    Muy bien escrito.
    Un abrazo

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  20. yo creo que nunca los médicos pueden acostumbrarse a esos momentos tan duros, en que la muerte les gana la partida. Muy buena historia.
    Un abrazo, Pedro y gracias.

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  21. Bom dia Pedro.
    Um belo conto, mostrando que apesar da competência, zelo e sensibilidade do médico faltou recursos para salvar uma vida. Infelizmente esse conto mostra a realidade dos hospitais dos interiores e muitos até da Capital falta tudo para se ter uma Boa assistência. Um feliz dia. Abraços.

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  22. Dura realidade, sim. O que conta, todavia, é o magistral trabalho com a linguagem. A tensão obtida é digna de registro. Maravilhosa narrativa.
    Abr.,

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  23. Amigo Pedro: Desculpe a demora para comentar seu ótimo conto. A boa narrativa desta história, nos mostra que continua igual pelo Brasil à fora, a pesar do tempo ser outro e do lugar onde tudo se passou.Tenho dúvidas atrozes se esta situação vai mudar algum dia, neste nosso País de corruptos!
    Abração, Léah

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  24. Ompotencia, amargura y trsteza se siente en situaciones como esas, que suceden más seguido de lo que deberían.
    Unos siegan vidas y nada les omporta y otros se sienten impotentes por no poderles salvar.
    Un abrazo.
    Ambar

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  25. Una historia tristísima, pero así suceden las cosas, y que por nadie pase. Un abrazo.

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  26. Oi amigo Pedro, que conto lindo!!
    Me desculpe a ausência, esses dias tenho andado sem tempo para o blog!! Aos poucos vou visitando os amigos!!
    Lhe desejo um excelente final de semana, fique com Deus!!

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  27. Una realidad dura y triste. Tantas veces a pesar de la competencia del médico, no sirve para nada si se carece de los elementos necesarios para actuar rápidamente.
    Buen relato Pedro.
    Un abrazo y buen fin de semana.

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  28. Precioso conto... fez-me lembrar do meu pai doutor, dedicado médico...
    Um beijo

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  29. ~~~
    A realidade de tantos locais isolados que há por este mundo,

    sem pronto socorro adequado...

    Parabéns pelo conto muito bem escrito e expressivo.

    Dias inspirados e felizes.

    http://avivenciaravida.blogspot.pt/
    ~~~~~~~

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  30. La vida dura de un médico de pueblo ha quedado reflejada en tu relato. La impotencia de no poder hacer nada y que a pesar de todo enfermera y doctor dan ánimos y permanecen junto al paciente. Saben que a falta de medios el calor humano es imprescindible.
    Recibe abrazos.

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  31. Uf que fuerte pero tan real.
    Al menos intento salvarlo y no murió solo.
    Un abrazo
    mar

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  32. A vida de médico é quase sempre muito dura. Você é um narrador excelente, amigo.
    Beijos.

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  33. Ver uma vida que acaba é sempre doloroso para quem é um profissional responsável.
    Por outro lado, deve ser ainda mais duro quando o hospital que recebe a vítima não tem os meios adequados para a salvar. E isso acontece por todo o mundo, mas é bem pior nos países menos ricos.
    Magnífico conto, gostei imenso.
    Pedro, tem uma boa semana.
    Abraço.

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  34. Olá Pedro, sua narrativa deixa na gente uma nuvem de reflexões e penso que foi sua intenção.Médicos vivem estes momentos e sabem como lidar com eles ao longo da carreira.A demora que supera a medicina. Recentemente pude acompanhar um caso de um acidentado assistido pelo SAMU, mas que ficou na ambulância um longo tempo esperando o que eles chamam de Regulação que é o controle de das vagas de leitos em hospitais da rede publica. Chega a chatear a espera aos que estão temendo pela morte.
    Muito bom amigo.
    Meu terno abraço e boa semana de paz e luz.

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  35. Duro relato que a pesar de su dureza lo he disfrutado.
    Gracias Pedro Luso por deleitarnos con tus escritos.
    Feliz día.
    Un gran abrazo.

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PEDRO LUSO