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10 de out de 2012

[Conto] CARLOS CARVALHO - Segunda-Feira



  
– PEDRO LUSO DE CARVALHO


CARLOS CARVALHO (Carlos José Gomes de Carvalho) nasceu em Porto Alegre, RS, no ano de 1939, onde faleceu, no ano de 1985, aos 46 anos. Nas décadas de 1970 e 1980 destacou-se na dramaturgia. Versátil, não se limitou a escrever para o teatro, também foi poeta e contista. Ao Teatro deu sua contribuição não apenas com suas peças, mas também como ator e diretor.

O livro de contos, Calendário do medo deu ao seu autor, Carlos Carvalho, o II Prêmio no Concurso Naional de Contos do Estado do Paraná. - FUNDEPAR.

Na Casa de Cultura Mario Quintana, uma das salas de espetáculos leva o nome Carlos Carvalho, uma homenagem da Secretaria de Cultura de Porto Alegre ao dramaturgo.
O conto Segunda-feira integra o livro de Carlos Carvalho, Calendário do medo, 3ª ed. Porto Alegre, Editora Movimento, 1975, p. 43-44. Segue o conto:



[ESPAÇO DO CONTO]
                         

 SEGUNDA FEIRA
  
    (Carlos Carvalho)


De manhã cedo a mãe vai chamá-lo. Resmunga. De cuecas, arrasta os chinelos pela casa, lava o rosto na água fria, demora-se no banheiro.

Enquanto a mãe prega o botão na camisa, alisa o cabelo empastado de brilhantina. Olha o relógio: sete e cinco. Tem ainda quarenta e cinco minutos. Boceja.

Em criança, queria ser dentista. Com a morte súbita do pai, precisou trabalhar e não sobrou tempo para o estudo. Recém saído do serviço militar, empregou-se como vendedor numa firma de peças de automóveis. Aos trinta e cinco anos, ainda lá continua, à espera de uma promoção.

Como o ordenado é pequeno e ganha gratificações pelas vendas, trabalha da manhã à noite. Foi, inclusive, citado pelo Diretor na festa do fim de ano e recebeu um diploma de Honra ao Mérito, que a mãe emoldurou e colocou na parede.

Nos sábados, à noite, vai ao cinema. Na volta, não se demora na rua, pois a mãe sofre do coração e não pode ficar só. Nos domingos, acorda ao meio-dia, toma uma cerveja no almoço e passa a tarde lendo revistas em quadrinhos, o cinzeiro enchendo de pontas de cigarro.

– Você ,precisa casar, meu filho.

– Tem tempo, mãe.

Coleciona fotografias de mulheres nuas, que esconde no armário, embaixo das roupas. Na rua caminha com passos lentos e pesados. A mãe diz que se parece com o pai. Sorri sem abrir muito a boca, para esconder a falha do dente.

Ultimamente tem sentido uma dorzinha enjoada na boca do estômago. Não conta à mãe, para não assustá-la. Temendo que seja úlcera, bebe um copo de leite em cada bar que entra.

Antes de sair, lava a louça do café, que a velha não pode fazer esforço.

– Depressa, meu filho, você vai se atrasar.

Pede dinheiro à mãe, que guarda o seu ordenado, e veste a camisa, enquanto ela recomenda:

– Cuidado no atravessar a rua.

Alisa ainda uma vez o cabelo, beija a mãe e sai. Da porta, ela abana, orgulhosa do filho. E os passos dele, iniciando a semana, parecem os de um bicho se arrastando penosamente.



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PEDRO LUSO