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10 de jul de 2016

[conto] PEDRO LUSO – Casal discute a relação




         [ESPAÇO DO CONTO]


CASAL DISCUTE A RELAÇÃO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Iolanda mal podia esperar pela hora do jantar, que havia preparado para o marido. A expectativa da conversa, que teria com ele, deixava-a apreensiva. Há muito tempo queria discutir a relação do casal.
Leopoldo chega na hora que havia combinado com Iolanda. Demora-se no banheiro. Quer fazer boa figura para sua bela esposa. Acordes de música muito suave, chegavam até ele.
O jantar correu como havia sido planejado por Iolanda. Sente-se tranquila, com o resultado. Não lhe passou despercebido que o marido havia gostado dos pratos servidos.
Depois, sentados em confortáveis poltronas, Iolanda inicia a conversa. O marido fica um pouco desconfortável com o que poderia ocorrer. Não acha razoável que contem, um para o outro, suas intimidades.
– Querido, o que você fez , nestes sete anos?
– Por favor, Iolanda! O que poderia ter feito?
Iolanda já havia estudado tudo o que teria para dizer ao marido. Destaca muitos momentos bons que viveram, mas não esquece dos maus momentos. E diz ter ciúmes das mães dos seus pacientes.
– Iolanda, eu sou médico dessas crianças!
– Então, por que tanta atenção com as mães delas?
Leopoldo não gosta do tom da conversa. Está arrependido por ter se deixado convencer pela mulher. Sabe que estava certo quando lhe disse que não deviam falar sobre suas vidas de casados.
– Querido, quer dizer que não teve amante?
– Claro que não, Iolanda!
Nessa altura da conversa, Leopoldo diz que é melhor para eles que parem. A mulher insiste em continuar. O marido reafirma sua intenção de parar. Diz que não lhe agrada esse rumo da conversa.
– Querido, você pode ser sincero, e falar da outra mulher.
– Por favor, Iolanda!
Está bem, querido, eu tive um amante, por dois anos.
Leopoldo fica chocado. Está cansado e abatido. Não se sente em condições físicas e emocionais para continuar. Iolanda parece não ver o que se passa com ele, e continua:
– Conheci ele no shopping...
Leopoldo permanece calado. Procura levantar-se da poltrona, mas a mão da mulher no seu ombro faz com que se recoste novamente. Seu desejo é deixar a sala rapidamente.
– Fomos amantes por mais de dois anos...
Leopoldo olha para mulher sem compreender direito o que está acontecendo. Não consegue sequer imaginar outro homem na vida de Iolanda. “É inconcebível essa ideia”, diz num sussurro.
– Agora, homem, fale de sua amante.
– Não tenho nada para dizer.
O casal fica em silêncio por algum tempo. Iolanda custa a acreditar ter confessado seu adultério ao marido. Desorientada, diz para si mesma: “Meu Deus, se pudesse voltar atrás”. Não tem ânimo para levantar-se.
Leopoldo levanta-se e sai da sala. Depois de alguns minutos, retorna puxando uma mala de viagem, e se dirige à porta social. Aí fica parado por alguns segundos, depois sai. Iolanda sabe que não há nada mais que possa fazer.



*   *   *





36 comentários:

  1. Um conto dos nossos dias. Excelente. A Iolanda devia saber que não se confessam as traições, a menos que se queira mudar de vida. E o Leopoldo ficou calado. Não ia confessar nada mesmo que fosse verdade...
    Gostei, amigo.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  2. Noooossa! Iolanda precisava desabafar e agora haveria de arcar com o resultado disso! muito legal te ler abraços, ótima semana! chica

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  3. Bonito relato de un conflicto matrimonial.
    La verdad en algunos casos, lleva al desencuentro y a un final caótico.
    Yo pienso que los análisis, mejor para el laboratorio, jeje.
    Me encantó Pedro, igualmente que la pintura, muy apropiada para esta entrada estupenda que nos dejas.
    Un abrazo.

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  4. Minha mãe diria: Meu Deus!
    Excelente cronica, caro Pedro.
    Um abraço. Tenhas uma boa semana, apesar da chuva.

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  5. Quando li que iria rolar uma DER, já sabia que não ia acabar bem.rs
    Como sempre, um ótimo conto.

    Beijo.

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  6. Além de um excelente conto, a sua narrativa e
    o desfecho sempre original, Pedro!
    Parabéns!
    Grata pela partilha, proporcionando a nós,seus leitores,
    uma literatura de qualidade excelente.
    Abraço.

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  7. En una ocasión durante una tertulia masculina en una emisora de radio, se formuló la pregunta de cuál consideraban los asistentes la frase más terrorífica que podía decirle una mujer a su pareja. La respuesta fue casi unánime. La pregunta más temida por todos ellos, era: “Tenemos que hablar”. Pero hablar él, no ella.
    ¡Ay, Iolanda, Iolanda!

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  8. Excelente relato, casi un microrelato. Dominas muy bien el arte de expresar mucho, con pocas palabras.
    Felicitaciones.

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  9. OI PEDRO!
    VAMOS COMBINAR QUE FOI TUDO ERRADO MESMO, PRIMEIRO IOLANDA TRAI O MARIDO E DEPOIS FALAR ASSIM, A QUEIMA ROUPA? SÓ PODIA DAR NO QUE DEU.
    GOSTO DEMAIS DE TEUS TEXTOS, SÃO SEMPRE IMPREVISÍVEIS.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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  10. Confesso que não sei o que comentar...fazer um super jantar para uma confissão de traição...sadismo ou masoquismo?Sempre nos deparamos com fator surpresa...
    Um abraço

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  11. O peixe morre pela boca rs, adorei dr Pedro, podes ter certeza que este dia frio e chuvoso ficou mais engraçado.
    ps. Carinho respeito e abraço.

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  12. Querer arreglar una situación y empeorarla al mismo tiempo, muchas veces es así.
    Un abrazo

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  13. A veces es preferible callar.

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  14. Nossa, muito bom seu conto, não sei se rio ou se choro, pois é, isso acontece nas vidas dos casais que querem de todo jeito "mudar algo", nem que seja para se separarem!
    Adoro ler seus contos, sempre espero pelo próximo!
    Abraços apertados amigo Pedro!

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  15. Oi Pedro,
    Que triste esta situação.
    Mais triste ainda foi a maneira de terminar com o que já estava no fim...
    Muito bom o texto!
    Abraços!
    Mariangela


    antes de tudo obrigado pela visita!

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  16. Pedro:

    A Iolanda colocou no marido a sua safadeza, sua insegurança; projetou seu péssimo caráter no pobre homem apostando que ele também teria uma vida paralela - pobre pediatra. Lembrei de um ditado que diz assim: cachorro comedor de ovelha, só matando! Mas o final, é trágico, não sei se é de rir ou chorar. Rir pela cena inédita dela; chorar pelo coitado que engoliu o jantar sem deglutir. Nem podia...
    De qualquer forma mostra a realidade como ela é, nem sempre bela e limpa. Mas é apenas uma parte da sociedade, serve para exaltar outros relacionamentos cujo suporte é o amor – sentimento baseado no respeito, na admiração, no carinho e na fidelidade conjugal. Assim não tem como não dar certo.

    Beijinho!

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  17. Belíssimo conto, Pedro. Ficou claramente demonstrado como o "tribunal da consciência" atua dentro de cada cabeça. É o “tribunal” mais verdadeiro que conheço. Quando se tem culpa ele é o primeiro a por a língua do falante pra se entregar; basta apenas uma puxadinha, bem do tipo da que Leopoldo fez. Negou tanto que a ela precisava só teve como se encavalar nessa negativa pra soltar a própria língua. Parabéns. abs

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  18. Costuma-se dizer que homem não gosta de discutir relação e penso que de facto a mulher é mais dada a essas coisas. No entanto, para mim, discutir relação é tentar resolver um problema que existe com uma conversa entre os dois até que se resolvam as coisas. Neste caso a Iolanda andava a trair o marido e achava impossivel que ele, contactando com tantas mães não tivesse tido um caso e queria a todo o custo que ele confessasse; assim teria desculpas para o seu comportamento; pode ser também que ela dissesse que tinha um amante, só para ver se ele confessava que a tinha traído. De qualquer modo procedeu mal; se não tinha motivos para desconfiar do marido, nao deveria proceder assim; se por acaso tivesse dúvidas, uma boa conversa , soncera e sem artimanhas resolveria a insegurança dela. Quem ama confia, quem ama diaolga com sinceridade, quem ama respeita o trabalho do outro e a relação que tem de ter com os clientes, neste caso as mães das crianças. Infelizmente casos destes acontecem muito, assim como casos de violência domestica como o relatado no conto anterior. Parabéns, amigo e obrigada pela partilha. Fica bem. Um beijinho
    Emilia

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  19. Amigo Pedro, você tem nos dado pessoas reais em seus contos perfeitos, são histórias que nos envolvem e despertam sentimentos variados como por exemplo o que me fez sentir pela "Iolanda", se o amor pelo marido já estava morto e enterrado, porque tripudiar, chutar cachorro morto revelando sua falta de caráter, sua safadeza? É realmente, sabemos que tem gente assim sentem prazer com o sofrimento alheio.
    Parabéns pela inspiração, amei.
    bjs. Léah

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  20. Amigo Pedro, es siempre un placer leerte , este es un bello cuento, me ha gustado mucho.
    Feliz semana y recibe un gran abrazo.

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  21. Ya no existía relación, sólo era vivir lo cotidiano....por algún lado dentro de la pareja algo falló sin duda al conversar las cosas se terminó de romper la escasa magia y todo acabó.....sin más.....es triste no dar el tiempo para conversar la vida en pareja más allá del día a día......
    Es un excelente relato, muy bien inspirado y muy actual....
    Abrazo Pedro

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  22. La sinceridad puede a veces ser motivo de sufrimiento.
    Muy buen relato.
    Un abrazo

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  23. Bom dia Pedro.
    Acho que a Iolanda traiu e esse fato fez pensar que também o seu marido a estava traindo. Confessou não por consciência pesada. Mas o que ela buscava era uma confissão de traição. E o que aconteceu foi inevitável. As mulheres pode até perdoar uma traição. Mas os homens raramente aceita. Bem feito para Iolanda, que perdeu a uniao. Como sempre ler os seus contos é um enorme prazer. Um lindo dia para vocês. Abraços.

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  24. Fica a dúvida... se Leopoldo, também não terá cometido seus deslizes... ainda que pudesse não tê-los confessado...
    Depois de uma conversa assim... nada podia ficar como antes... mas para ter chegado nesse ponto... já nada estaria a ser também como antes...
    Uma excelente narrativa, Pedro, que nos prende a atenção do princípio ao fim... pela imprevisibilidade da situação...
    Abraço! Desejando-lhe a continuação de uma excelente semana...
    Ana

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  25. Há muito para ser refletido neste conto. Iolanda procura no marido algo que justifique o seu ato em vez de o assumir. Gostei. Parabéns!

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  26. Grande Pedro, fantastico nestes contos.
    Uma verdade oculta querendo outra verdade inexistente e o falar sem ninguém perguntar.O final fica na nossa cabeça.
    Aplausos mestre.

    Um bom fim de semana.
    Meu terno abraço.

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  27. Que triste el engaño e infidelidad, después como se puede volver a reconstruír lo que quebrado esta.
    Un abrazo para ti y que viva el amor leal.
    mar

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  28. Las relaciones de pareja son siempre
    mucho más complicadas de lo que parecen,
    por eso hay que trabajarlas mucho para no llegar
    a un punto así. Y si el amor se acaba, hablarlo
    como dos adultos.

    Un abrazo y muchas gracias por tus felicitaciones
    por mis nietas.

    Muy buen fin de semana.

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  29. Mais um belo conto amigo Pedro e escrito duma maneira magistral como sempre.
    Um abraço e bom fim de semana.
    Andarilhar

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  30. bem narrado.
    mas fica a dúvida.
    será que só ela teria um amante?
    e ele?
    bom fim de semana.
    beijinho
    :)

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  31. Entre quatro paredes somente o casal poderá saber dos seus deslizes e desentendimentos... no mais, observa-se de longe...
    Feliz domingo.
    Um beijo

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  32. Pedro Luso
    Conto imaginado apropriado a prender o leitor, quero dizer policiarista, visto ser a ele que vai digerir o que fica envolto em mistério desta relação conjugal.
    Abraço

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  33. Eu teria pegado a mala dela e a colocado para fora de casa, com o risco de ser taxado de machista. Gostei da fluidez do conto.

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  34. El juego de decir la verdad puede ser muy peligroso.

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  35. Uma história com pontas soltas, como convém, para que o leitor dê largas à sua imaginação.
    Mas é legítimo pensar que é prudente (como em tudo na vida) ter as malas sempre prontas.
    Gostei.

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  36. Maravilha de conto bem escrito que se lê num folego só!
    Adorei!!
    Beijos, Vilma

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PEDRO LUSO