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18 de out de 2015

[Crônica] PEDRO LUSO – Como conheci Mario Quintana


– PEDRO LUSO DE CARVALHO

Eu era ainda estudante da faculdade de Direito quando tive a grata oportunidade de conhecer, pessoalmente, Mario Quintana. Isso ocorreu sem qualquer planejamento. Tudo foi quase por acaso.
Naquele dia, em que caminhava pela Rua da Praia, o que menos poderia me ocorrer seria encontrar-me com Mario Quintana. Para colocar as coisas no seu devido lugar, vamos deixar uma coisa bem clara: eu nunca havia feito planos para ser apresentado ao poeta. Isso estava fora de cogitação.
Não tivesse encontrado a jovem e talentosa jornalista, que trabalhava para o jornal Correio do Povo, de quem me tornara amigo, há mais de ano (naquela época), o convite dela para conhecer o nosso estimado poeta, apanhou-me de surpresa.
– Apresentar-me o Mario Quintana? – perguntei.
Diante dessa pergunta e da inflexão dada por mim, a jornalista não escondeu o riso.
– Vamos até o jornal, ele não vai te morder.
– Então, seja o que Deus quiser.
E lá fomos nós, pela Rua da Praia. Na esquina com a Caldas Júnior – rua que se tornou famosa por sediar o jornal Correio do Povo e a rádio Guaíba – fizemos uma inflexão para a direita. Estávamos já diante do prédio do jornal.
– Tenho que ir mesmo?
– Vamos subir, agora mesmo – disse a jornalista.
A redação do jornal ficava no primeiro andar. Lá, Quintana escrevia sua coluna, como fazia durante toda semana. Em frente ao elevador, ela apertou o já gasto botão de madrepérola. O antigo elevador não demorou a chegar.
A porta de gaita, do velho elevador, abriu-se diante de nós, fazendo um barulho estridente. O educado ascensorista fez um gesto com a mão, sinalizando para entrarmos. Deixou-nos no andar da redação.
– É por aqui – disse a jornalista, já no corredor.
Da porta, vi uma sala muito grande, com várias mesinhas enfileiradas. Só não consegui enxergar o Mario Quintana. Andamos um pouco mais. Passamos pelos jornalistas, que escreviam seus textos, nas suas velhas máquinas. As repetidas batidas nas suas teclas arredondadas causavam um som estridente e nervoso.
Mais uns passos, e logo nos deparamos com o poeta. Estava sentado frente à sua mesa, soltando baforadas. O cigarro aceso fazia desenhos no ar, na medida em que o poeta gesticulava. Do cigarro, já quase no fim, desprendia-se uma linha fina de fumaça em espiral. Ao lado da máquina, na qual escrevia, um gordo cinzeiro exibia suas guimbas.
 – Hoje vai ser o meu grande dia – pensei.
A jornalista aproximou-se de Quintana, com intimidade, quase nas pontas dos pés. Com ela em sua frente, não se demorou a levantar. Fiquei ao lado deles, no pouco tempo em que conversaram. Com discrição, olhei para o poeta, que me pareceu tratar-se de um homem simples. Era mais baixo do que imaginava. No seu rosto, nenhum traço que pudesse indicar qualquer sentimento.
– Mario – disse a jornalista –. trouxe um amigo para te apresentar...
Solícito, estendi a mão para o poeta. Sua mão mal tocou a minha, nesse cumprimento.
– Muito prazer, seu Quintana.
– Prazer!  – respondeu.
Sua voz era quase inaudível. Seu olhar estava fixo na janela, de onde se via a rua. Demorou muito pouco para que a mão do poeta tateasse as costas de sua cadeira, onde logo iria sentar-se. O papel ali, na máquina, era o que lhe interessava.
– Vamos?! – sussurrou a jornalista, puxando-me pela manga do paletó.
Depois de muitos anos decorridos, a contar daquele rápido encontro com Mario Quintana, fiz esta descoberta: no mundo mágico dos poetas, que é feito de sonho e solidão, não há lugar para estranhos e importunos.
 "Não vou me enganar mais" – admiti resoluto –, naquele dia em que fomos apresentados, Quintana não disse “prazer”, quando lhe estendi a mão.


    *  *  *



19 comentários:

  1. Belos textos, Pedro !!!
    Gostaria de conhecer Quintana, mas será que ele gostaria de me conhecer??? Dúvida...
    Tenha uma semana iluminada e vitoriosa !!!
    Beijos da Nana
    www.nanamaniadeartesanato.blogspot.com

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  2. Pedro! parabéns pelo Blog e esta postagem em especial, sou fã de Quintana e adorei penetrar um pouquinho no mundo dele, claro que mais intrusa ainda que você rs.
    Até mais!

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  3. Oi Pedro, imagino que este dia tenha sido muito especial pra você. Mas, confesso que senti um pouco de decepção. Que bom que você soube interpretar o solitário mundo em que se encontram por vezes os grandes poetas,e não sair de mãos vazias. Acabo encontrando aqui um outro poeta.
    Belíssima crônica. Parabéns.

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  4. guilhermina moeckel cavalli11:25

    Bom dia!
    Cheguei ao seu blog nesta ensolarada – mas fria – manhã curitibana de sábado, porque vim “fuçar” coisas a respeito de um autor blumenauense, atualmente radicado em nossa cidade, cujos textos me encantam: Roberto Gomes, sobre quem você já escreveu.
    Aí, vasculhei os títulos de suas crônicas e encontrei esta, adorável, sobre o igualmente adorável Quintana, poeta a quem o Gomes ama (quem não?) e sobre quem trocamos algumas ideias. (“Trocamos” é eufemismo/otimismo da minha parte: ele fala e eu só aprendo, é claro...)
    Já coloquei o “Veredas” na lista de preferidos e virei encontrá-lo mais vezes. (E enchê-lo de postagens, se me permitir!)
    Com dois dias de atraso, PARABÉNS pelo Dia do Escritor!
    guilhermina

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  5. rssss, foi trágico! Não tenho dúvidas que eu ficaria numa saia justa. Certas coisas é melhor não ouvir e nem imaginar. Também ficaria frustrada. E pelo sim, pelo não... não arriscaria, ainda mais com Quintana - o preferido. E se ele nem me olhasse? Que desolação. Prefiro ficar pensando que eu teria um "Olá, como se chama?
    Lembro dessa história...Mas dele tudo vem com graça, até uma frustração.
    Beijinho daqui do gabinete do lado.

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  6. Credo anche io che l'estrema sensibilità riesca a isolare le persone...quando si conosce un grande uomo, si vorrebbe in pochi momenti entrare nel suo mistero, ma non è possibile! Ho letto alcune sue poesie, molto belle! Un incontro particolare che resterà nella memoria! Buona settimana Pedro!

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  7. No cabe duda de que fue un encuentro especial donde pudiste observar con tus propios ojos ese mundo mágico de los poetas hecho de sueños y soledad como bien dices, y si además sintió placer al conocerte, es que le llegaste dentro.
    Un saludo.

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  8. Boa noite Pedro Luso.
    Credo, imagino a sua decepção, que bom que soubesse se sair bem diante da situaçao no minimo constrangedora e hoje lembrar com um certo humor a situaçao vivida. Uma linda semana para vocês. Beijos

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  9. Oi Pedro, os grandes poetas ficam tão absortos no seu eu, com idéias a fervilhar que esquecem que são humanos.
    Mas eu sou humana e o convido para ler a minha poesia(um pouco grande) do blog Lua Singular. Aceita??
    Lá não tem comentários, é só para o deleite.
    Beijos no coração
    minicontista

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  10. Oi Luso:
    É, todos temos umas decepções na vida umas enormes, outras que dão para se levar.como algo engraçado, mas enfim todas são lembranças válidas.
    Abraços,
    Léah.

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  11. Pedro ter conhecido o ilustre poeta, já é prazer, sobretudo, para quem se estava preparando para o mundo das letras. Vale parabéns!

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  12. Gosto da poesia de Mário Quintana, mas, ele poderia ter demonstrado , um resquício que fosse, de atenção para com você.
    Pedro, beijos!

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  13. Qué bien has aprovechado la experiencia vivida con tu admirado poeta, a la vez que poco interesante ser humano. En la vida real es difícil encontrar al hombre cúbico, 100x100 bueno, 100x100 inteligente, educado, culto, etc.

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  14. Gosto da poesia de Mário Quintana. Obrigada pelas palavras deixadas no meu "Ortografia". Passarei aqui outras vezes.
    Abraço.

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  15. Oi Pedro. Boa noite!
    Somente as pessoas que admiramos nos decepcionam. Às vezes esquecemos, que toda roseira tem espinhos.... O bom de tudo isso é que as decepções que sofremos com atitudes alheias, nos ensina a viver.
    Abraço.

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  16. É um privilégio ter conhecido e o grande Mário Quintana um escritor e poeta de dimensão mundial.
    Um abraço e uma boa semana.

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  17. Sempre emozionante leggere le pagine del tuo variegato blog, Pedro
    Inizia una bella settimana, un caro saluto,silvia

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  18. Estar de frente para Quintana ainda que supostamente de maneira fria, deve ser uma emoção diferenciada e por certo no "seu mundo" naquele instante um turbilhão de palavras o invadia e ele teria medo delas escaparem no "prazer" e ficar incompleta inspiração.
    Boa cronica da emoção e bela saída do sentimento.
    Meu terno abraço.

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  19. Interessante esse seu encontro com o grande M. Quintana, apesar de tudo...Talvez o poeta estivesse magicando um poema, e qualquer pessoa nessa altura teria sido encarada como uma "intromissão"...:-)
    Posso dizer que fiz a minha tese a partir de um livro de Vergílio Ferreira, "Cântico Final". Solicitei, de Coimbra, um encontro com ele para debatermos acerca da obra, e a verdade é que ele ficou muito interessado e convidou-me para passar uma tarde em sua casa em Lisboa. Um grande escritor, como eu já sabia, mas um homem de uma simplicidade e humildade cortantes. Aconteceu nos idos de 1986, mas foi um encontro memorável. E o meu único encontro com algum escritor.
    Gostei de ler a crónica, Pedro.
    xx

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PEDRO LUSO