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15 de nov de 2012

[Conto] MACHADO DE ASSIS - Um Bilhete


 PEDRO LUSO DE CARVALHO ]


O mestre do romance e do conto, sem esquecer a importância do poeta e do cronista, Machado de Assis deixou uma obra extraordinária, que continua atraindo leitores e estudantes que buscam formação humanística nas universidades brasileiras.

Nas livrarias e nas bibliotecas públicas, e certamente nas bibliotecas particulares, encontram-se muitas obras de críticos literários e de escritores que estudam e enaltecem o valioso legado de Machado de Assis:

JOSÉ VERISSIMO: “Machado de Assis foi a mais eminente figura de nossa literatura”.

ÁLVARO LINS:Machado atingiu no conto a perfeição de forma e de concepção”.

AURÉLIO BUARQUE DE HOLLANDA e ÁLVARO LINS: “Tem este nome, por todos os títulos, um capítulo especial, um lugar à parte na literatura brasileira. Não só a sua personalidade original o colocou acima de escolas e grupos, dando-lhe aos livros uma fisionomia própria, mas a sua obra apresenta um valor, uma importância literária sem igual em nossas letras”.

GUILHERME FIGUEIREDO: “A tradição romântica e realista do conto brasileiro se inclinou para a síntese de situações, para a fotografia rápida de caracteres. Narrativas como as que escreve Viriato Correia são pouco comuns, sobretudo desde que Machado de Assis elevou à perfeição a técnica do conto”.

Segue o conto Um bilhete, de Machado de Assis (In Contos sem data/Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1956, p. 71-72):


[ESPAÇO DO CONTO]


UM BILHETE
(Machado de Assis)


Antes mesmo que acabasse o baile, Maria Adelaide dizia à mãe que não queria ficar um minuto mais que fosse.

 Que é isso? disse-lhe a mãe. Deu uma hora agora mesmo.

 Não quero saber. Vamo-nos embora.

 Ora, meu Deus!

 Vamos, vamos. 

Não havia que dizer; a mãe era governada pela filha, e perderia o lugar no céu, se tanto fosse preciso, para não desgostá-la. Note-se que não cedia pouco desta vez; cedia e cedia, que era excelente, e a boa viúva professava esta filosofia: - que as ceias excelentes são preferíveis às boas, as boas às más e as más às que não tem existência. Sacrificava a melhor parte do baile; mas, enfim, com tanto que a filha não padecesse.

Padecer, padecia. No carro, logo que as duas entraram, Maria Adelaide começou a ralhar com tudo, com o carro, com a capa, com o calor, com pó, com a mãe e consigo mesma. A mãe entendeu logo: era algum desgosto que o Chico Alves lhe dera. Realmente, lembrou-se que o Chico Alves, indo despedir-se delas, nem alcançou que Maria Adelaide olhasse para ele. A moça deu-lhe os dedos, a pontinha apenas, e falou-lhe de costas; naturalmente estavam brigados.

A viagem foi atribulada. Nunca o mau humor da moça foi tamanho nem tão explosivo. A mãe pagou pelo namorado, mas como era prudente e estava com fome, preferiu não dizer nada.

Em casa, continuou o mau humor. A pobre criada da moça padeceu como nunca. Maria Adelaide entrou para os seus aposentos, furiosa, despiu-se às tontas, dizendo coisas duras, rasgando uma das mangas do vestido, atirando as flores ao chão, raivosa e indignada sem causa aparente. No fim, disse à criada que se fosse embora, e ficando só rebentaram-lhe as lágrimas. Assim mesmo sozinha, ia falando, mordendo os lábios, dando punhadas no joelho. Depois arrancou da cadeira, foi à secretaria e escreveu este bilhete:

“Nunca pensei que o senhor fosse tão pérfido. Nunca imaginei que pudesse proceder como fez no baile; creia que não manifestei o meu desgosto, por dois motivos: - o primeiro, porque ainda tive força de me dominar; segundo, porque depois do que o senhor me fez, nada pode haver mais entre nós. Case-se com a viúva, se quer. Mande as minhas cartas e adeus. Esta determinação é irrevogável. Qualquer tentativa de reconciliação obrigar-me-á ao que não quero”.

Tinha dado expansão à cólera, deitou-se para dormir. O sono não veio logo; a raiva agitou a pobre moça, e só quando começou a madrugada foi que ela pode dormir um pouco. No dia seguinte, o Chico Alves recebia este bilhete:

“Desculpa algumas palavras que te disse ontem no baile. Vem hoje tomar chá, e eu te explico tudo”.

Z. Z. Z.

(In “A Estação”, 28 de fevereiro de 1885)

                        
                         *


REFERÊNCIAS:LINS, Álvaro. Literatura e vida literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963.
FIGUEIREDO, Guilherme. Cobras e lagartos. Rio de Janeiro: Nova Fronte
LINS, Álvaro. BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio. Roteiro Literário de Portugal e do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, vol. II, 1966.ira, 1984.



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4 comentários:

  1. Pedro, parabéns pelo blog! Grande Machado de Assis, um dos fundadores da Academia de Letras, autodidata!
    Um grande abraço!

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    Respostas
    1. Caro Denilson,

      É verdade, Machado de Assis foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro presidente.

      Mais do que isso, Machado é o nosso maior escritor.

      Um abraço,
      Pedro.

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  2. Anônimo13:08

    Ola , por favor eu estou fazendo um trabalho da minha escola e preciso do resumo deste texto . Você poderia me explicar por favor ?

    Abraço
    Larissa

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  3. Parabéns, um espaço como este é fundamental para os amantes da nossa literatura.

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PEDRO LUSO