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7 de dez de 2012

[Conto] RICARDO RAMOS – O terceiro irmão



– PEDRO LUSO DE CARVALHO
  
RICARDO RAMOS (1929 – 1992), filho de um dos nomes mais importantes da literatura brasileira, Graciliano Ramos, escreve sobre a cidade grande, retratando-a nos seus problemas, na celeridade que a caracteriza, mostra, no seu âmago, um redemoinho de paixões, injustiças e pressões, nas quais se consomem os que a habitam, presos que vivem nas teias da sociedade de consumo.
Ricardo Ramos recebeu muitos prêmios, dentre eles: Prêmio I Academia Brasileira de Letras (conto e romance); o Prêmio Jaboti, que lhe foi concedido por três vezes; Prêmio da Câmara Brasileira do Livro (conto, novela e romance); Prêmio Guimarães Rosa, concedido pelo conjunto da obra do contista. Sobre o trabalho de Recardo Ramos, diz Jorge Amado:
O ficcionista Ricardo Ramos é hoje um dos melhores escritores que possuímos, num país de tantos gênios e tão poucos escritores. Um escritor muito nosso, não apenas pelos temas, mas principalmente pelo sentimento brasileiro.
Segue o conto O terceiro irmão, de Ricardo Ramos (In Os melhores contos brasileiros de 1974/Ricardo Ramos. Porto Alegre: Editora Globo, 1975, p. 147-149):
         

  [ESPAÇO DO CONTO]



O TERCEIRO IRMÃO

– Ricardo Ramos




O irmão mais velho tinha dez anos, fechou a janela e comentou maravilhado:

– Deus é muito grande. Fazer o mundo, o sol, as estrelas. É uma coisa!

O irmão mais novo, dois anos mais moço, duvidou:

– E foi Deus quem fez?

O primeiro estava escandalizado, levantou a voz:

– Então não foi? Se não foi ele, quem é que fez?

O segundo continuou só respondendo:

– Ninguém, ora!

– Como ninguém?

– Já estava feito.

– Sem se fazer, nem nada?

– É, de nada.

– Você não acredita?

– Acreditar em quê?

– Você é uma besta.

O terceiro irmão, que só tinha um olho, entrou na discussão apaziguando:

– Esperem aí, não é tão simples. Desde o começo os homens se dividem. Os que acreditam, os que não acreditam. Foi sempre assim.

Quando fez doze anos, o irmão mais velho ganhou uma bola e jogou futebol. O irmão mais novo ganhou um livro e leu. Às vezes, um chamava o outro.

– Vamos jogar?

– Você não quer ler?

Nenhum dos dois aceitava. O mais novo calado, abanando a cabeça. O mais velho se irritando:

– Você não sai, não corre, não faz exercícios.

– Pra quê. Não tenho vontade.

E continuava lendo. O outro xingava:

– Bicha!

Ele respondia, sem se alterar:

– É a mãe.

O terceiro irmão, que só tinha uma pena, comentava com certa alegria:

– Vocês são diferentes como dois irmãos.

Quando chegou aos quinze anos, o irmão mais velho aprendeu a dançar. O irmão mais novo aprendeu a ouvir música. Um saía para os bailes de sábado, onde fez do rock ao samba, e esticava as noites com chope e violão. O outro ficava com os seus discos, o seu gravador, quieto e de olhos fechados, apenas mexia o corpo num balanço quase de não se perceber. Com o tempo, o primeiro decorou Chico, Edu e Lira, até cantava. O segundo estalava os dedos, sempre num ritmo sem palavras.

– Como é que pode gostar disso?

Isso era o canto de protesto, com versos e instrumentos de fora, estrangeiro feito um menino sozinho dentro de casa.

– Eu gosto.

– Eu sei. Há gosto pra tudo.

– É. Está aí você.

E brigavam, música pop, música popular brasileira, ambos com ar superior, que podia ser mais agressivo, mais discreto, no entanto o mesmo tom de fácil discordância.

– Você faz questão de ser original. Pendure um disco no pescoço.

– Você é o consumidor-modelo. Continue batucando os seus sambinhas.

O terceiro irmão, o que só tinha um ouvido, levantava as mãos e dizia:

– Somos todos irmãos, consumidores. Qual é mesmo a música desse verso?

Quando alcançou a maturidade, o irmão mais velho estava no fim do curso científico e ia fazer medicina. O irmão mais novo se iniciava no clássico e pensava em filosofia. O primeiro tinha uma namorada firme, o segundo tinha muitas. Um se vestia com cuidado, acertava a barba quadrada, punha água-de-colônia no lenço; o outro usava as mesmas calças desbotadas, os cabelos despenteados e compridos, os óculos redondos. Nas refeições, o mais velho comia muito e crescia, aumentava, forte e sólido, enquanto o mais novo nem tanto, esquecido, alongado, meio frágil. Talvez por isso também discutissem:

– Quando eu for rico.

– O negro é bonito.

– A guerra acabou, ninguém pensa em ninguém.

– A luta não é minha, é de todos.

– O povo está conformado.

– Eu não sei, não vejo televisão.

O terceiro irmão, o que só tinha um lado, o do meio, perdia-se no barulho, na fronteira, e já não sabia o que dizer.

O irmão mais velho saiu e foi denunciar o irmão mais moço.

O irmão mais moço foi condenado à morte por crime de opinião.

O terceiro irmão, o que só tinha uma vida, tomou o seu lugar diante do pelotão de fuzilamento. As balas todas acertaram o alvo. Porque ele estava um pouco maior. Não deixou bilhete nem última vontade.

E os irmãos sobreviventes continuaram, discordando, brigando, sorrindo, até que a cidade escureceu, o país acabou, o mundo caiu, e um grande silêncio voltou sobre todas as coisas.



 REFERÊNCIAS: 
 RAMOS, Ricardo. Os amantes iluminados. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.
 RAMOS, Ricardo. Os melhores contos brasileiros de 1974. Porto Alegre: Editora Globo, 1975.




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PEDRO LUSO