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23 de jul de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Ventania





VENTANIA
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Da Patagônia, esse vento, esse frio
(congelante frio)
vem cortar minhas veias com garras mortais.

Vejo através da vidraça, assombrado,
o dia sumir
escuridão repentina, noite no dia
gélido terror.

Sobre o telhado da casa, às escuras,
barulho horrendo
de passos, de ser
estranho, vindo de um estranho mundo.

Fantasmagórica ventania não cessa
com o seu uivar
de fera faminta.
Seguro à janela, curvado de medo,

ouço o terrível zunido da ventania
guerreira feroz –
derrubando postes,
fios agonizantes no chão, retorcidos.






*  *  *







16 de jul de 2017

Poesia) PEDRO LUSO – A alma do homem





A ALMA DO HOMEM
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Sobre a cama o corpo frágil,
não mais o corpo forte e ágil,
do tempo, vítima.

Na desordem do quarto, o ágio,
mas vem raios de luz, apanágio,
numa paz legítima.

Havia um plano para a noite,
para o mortal plano, o açoite,
ao homem implica.

Esperança do homem feneceu,
forças findas na noite, no breu.
Morre, a alma fica.





*   *   *





8 de jul de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – A inútil espera






A INÚTIL ESPERA
– PEDRO LUSO DE CARVALHO



Na longa espera dói-me o peito
ferido por tantas esperas
em meio às fotografias
amareladas
do velho álbum
sobre a escrivaninha.


Pressenti na inútil espera
a ruptura dos elos
vidas perdidas
com sonhos tantos
acalentados
encanto e desencanto.

Naquela tarde quase noite
me vi no vidro da janela
refletido
a dor refletida no espelho.


Vi lá fora a silhueta da mulher
na densa névoa
fazia-me acenos de despedida –
ausência e lembrança eternizavam-se.





*  *  *




2 de jul de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Este não o meu país




ESTE NÃO É O MEU PAÍS
-- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Honra me ensinaram a ter
Desonra é o que vejo no país
Astúcia e maldade também
De venais políticos a ganância
Deles somos todos reféns
Podem subtrair subtraem

Honra me ensinaram a ter
Desonrra é o que vejo no país
Todos agora são estranhos
Agora aqui tudo é diferente
Não é o que foi a minha casa
Nem a escola onde me instrui

Não conheço mais este país
Em que país terei crescido
Onde aprendi moral e ética?
Lições de casa e da escola
Dos pais e dos professores
Honra me ensinaram a ter


Desonra é o que vejo no país
Aqui é sistêmica a corrupção
Tiram o que temos sem pejo
Políticos de todas as frestas
Legam insegurança e medo
Marca da violência o sangue

Aqui a morte está no semáforo
Também pode estar na praia
Na avenida pode estar
Pode estar também na praça
A morte está em mãos nervosas
No apertar do gatilho a desgraça.




*  *  *




24 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - A tempestade




A TEMPESTADE
- PEDRO LUSO DE CARVALHO




No meio da tarde escurece
a cidade.
Nuvens de bronze reunidas
no meio da tarde.

O vento varre calçadas e ruas
no meio da tarde.
Caiem arvores e arbustos
prenúncio de tempestade.

Há gente com medo na tarde,
no meio da tarde,
dia que se fez noite
a tempestade o açoite.

A tempestade parou na tarde,
no meio da tarde.
Em casas, onde a água entrou,
danos tantos, a poucos poupou.




*   *   *





16 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Soneto da penúria






SONETO DA PENÚRIA
PEDRO LUS- O DE CARVALHO



Na cidade há gente com fome,
mulheres e homens maltrapilhos
gente desconhecida, sem nome,
para a sociedade empecilhos.


Essa sofrida vida, que vemos,
nódoa que em nós está grudada
enreda para que a derrotemos
com nosso canto, nossa toada.

Não deixemos que a fome mate
gente à míngua de esperança,
ajuda seja nó que não desate.

Que não venham para enganar,
sempre fazem, habitual usança.
Fome, quer o faminto matar.



*  *  *



9 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Os vigaristas





OS VIGARISTAS
PEDRO LUS- O DE CARVALHO



Que saibam vocês guardar segredo
das tristes coisas que vou contar,
tristes casos, sem nenhum enredo,
a ninguém fará rir nem chorar.

Pode causar medo a história,
todos somos reféns de bandidos
(triste caminhar, luta inglória)
visíveis todos ou escondidos.


Vigaristas vis do parlamento
gente educada e bem vestida
roubam todos com descaramento,
míseros, pensam ter eterna vida.




*  *  *



2 de jun de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Os desprezados






OS DESPREZADOS
PEDRO LUS- O DE CARVALHO


A ninguém conte o segredo,
a esperança saiu porta afora
meteu-se em becos imundos
breus de torpezas, vis becos
de pervertidos, condenados
todos, sentença irrecorrível
saldo de vidas consumidas,
acre cheiro, vício de pedra
fumaça a revoltear espiral
escultura para os túmulos,
renúncia insultuosa à vida,
da crueldade retrato, chaga
do país à mostra sem recato.



*   *   *



26 de mai de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Acontece comigo






ACONTECE COMIGO
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
Minha vida tem sido assim
há sempre alguma bruma
há sempre alguma tristeza,
sem que possa explicar o que seja.

Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
Esta dor em meu peito
a desgraça tão presente
o país que não se inveja,
sem que possa explicar o que seja.

Alguma coisa acontece comigo
sem que possa explicar o que seja.
O meu desejo de partir
para na distância viver
paz há quem anteveja,
sem que possa explicar o que seja.




*   *   *