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23 de set de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – O encantamento das águas





Escrevi este poema como forma de denúncia pelo elevado número de suicídio no Brasil, onde uma pessoa se suicida a cada quarenta e cinco (45) minutos, segundo a Comissão de Assuntos Sociais (CAS).
O poema é também para o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, 10 de outubro, e para o Centro de Valorização à Vida (CVV), criado há 55 anos.


O ENCANTAMENTO DAS ÁGUAS
PEDRO LUSO DE CARVALHO


Da ponte avista-se espesso manto
das claras, fundas águas do rio,
comprimidas por margens hostis.


Águas do rio vão para o mar,
cumprindo seu traçado destino.
O mar acolhe águas andejas.

Fico imantado às claras águas,
ouço doce som, quase murmúreo.
Serão estas águas o Paraíso?

É-me impossível deixar o rio,
maravilhado estou com as águas,
pelo seu fascínio subjugado.

Preso ao encantamento das águas,
atado ao seu manto de luz
resta-me atender ao chamado.

Num impulso, salto para as águas
neste voo com asas de pássaro.
Encontrarei meu ninho de paz.




 *   *   *





15 de set de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Mulher e o Algoz



Escrevi este poema como forma de denúncia pelo assassinato de treze (13) mulheres brasileiras por dia, em média, segundo estatística oficial, vítimas de seus maridos, companheiros ou namorados, a maioria mulheres negras ou de condição pobre.



A MULHER E O ALGOZ
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Quarto às escuras, a mulher olha
através da vidraça.
A luz da rua entra e clareia livros
em cima do velho baú.

Na calçada, o relógio iluminado,
envolto em ramos de árvores,
com os longos ponteiros duplicados
pelos efeitos das sombras.

De um amor que se fez ódio, ameaça.
É longa demais a espera
na escuridão do quarto, amedrontada –
sabe ela de sua sina.

Na rua, som e silêncio alternados,
carros no asfalto molhado.
Só no quarto, mulher sem esperança
e sua espera pelo homem.

A mulher ouve passos, que cessam
já proximos à porta.
Com o impacto da força cede a porta,
ruído gerado fere o silêncio.

De repente, aí no escuro do quarto
na fria, gélida noite,
zune no ar a lâmina na mão do homem –
cai uma rosa da roseira.





*   *   *



8 de set de 2017

(poesia) PEDRO LUSO - A morte do poeta





A MORTE DO POETA
PEDRO LUSO DE CARVALHO




O poeta faz pacto com os deuses
para a eles entregar-se
quando fenecerem suas musas.

Pede o poeta nesga de tempo
para terminar seu canto,
um raio de luz sobre a mesa.

Não falte inspiração ao poeta,
e que alguém lembre
o canto, a missão, a sua sina.

No mundo em que renascer
será nuvem na pradaria
ou estrela clareando noites.






*   *   *





1 de set de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Esquecimento





   ESQUECIMENTO
     – PEDRO LUSO DE CARVALHO



No último porto deixei esquecidas
minhas lembranças.
Não sei de quem é o rosto
no espelho!
Na lúgubre caverna do tempo
ficou guardada
minha memória.
Se não sou visto nas ruas da cidade,
por onde ando,
é porque são invisíveis os fantasmas.




*   *   *




20 de ago de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Poetas modernos


POETAS MODERNOS
- PEDRO LUSO DE CARVALHO


Ouvia-se alaridos tantos
nos tantos quadrantes
no longíquo ano de vinte
e dois, saídos do teatro
paulista, mudanças tantas,
repto ao estável universo
das artes, que giravam
giravam em redemoinho.

Vanguardistas viam à frente
ocultos horizontes:
Oswald de Andrade
e Mário de Andrade
(que nem parentes eram).


Palco do Teatro Municipal,
expostas as vísceras
de conservadores,
tantos passos à frente
mutação nunca imaginada.

Frutos dessa mesma árvore
da Semana, os poetas:
Manuel Bandeira, Carlos
Drummond de Andrade,
Cecília Meireles, Vinícius
de Moraes
e João Cabral de Melo Neto.

Poetas modernos
da árvore de 22 ramificada
há muitos no país,
carência de espaço e tempo,
pausa para citá-los.


*   *   *



13 de ago de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A inútil busca




A INÚTIL BUSCA
 - PEDRO LUSO DE CARVALHO



Aonde encontraremos político,
da pátria defensor denodado,
nobreza d'alma, honra iluminada,
com caráter em aço forjado?

Homens probos já teve o país,
esquecidos no tempo distante,
apagados seus ensinamentos:
à amada pátria, amor constante.

Presente no país a miséria,
é submetido o povo à dor,
desolado, desesperançado,
sem a coragem de vencedor.

Desiludida está tanta gente,
qual andrajos de nave retida,
descrendo na imposição da lei
persistem em terra destruída.




*   *    *



6 de ago de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO - Hemoptise






   

    HEMOPTISE

   - PEDRO LUSO DE CARVALHO




Vi naquele quarto sombrio
aquele homem de vítreos olhos
palidez de cera no rosto
as profundas marcas gravadas
pelo tempo nesse seu andar
com a dor que espera passar.

A ameaça se faz presente
(não cessa o martírio da tosse)
o risco de romper-se a veia
azulada, que a pintou mão
de algum espectral ser no rosto
marmóreo, para seu desgosto.

Não mais quer lutar pela vida:
irrompe-se, qual meteoro,
a hemoptise; sente-se o frio,
silêncio no quarto vazio.



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