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17 de nov de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Meu Caminho







MEU CAMINHO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Pudesse escolher meu caminho
outro caminho trilharia
sem ter culpa para expiar.

Resigno-me com minha estrada,
aceito o travo de amargura,
pois pode haver um renascer.

Há transtornos em meu caminho,
conflitos nas encruzilhadas,
tempo de andar e de parar.

Fino-me um pouco nesse andar,
há sempre perigo nas curvas,
facas e punhais na neblina.

Quando não tiver mais caminho,
quem guardará o som de bronze
desses passos, desse meu andar?





 *   *   *





11 de nov de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Noite





A NOITE
PEDRO LUSO DE CARVALHO




A janela do quarto,
na semiobscuridade,
bate repetidamente.

É o vento
trazendo lembranças
e fantasmas
das lonjuras do tempo.

Vento forte
quebrando a solidão
do bronze das estátuas,
esquecidas
nas praças desertas.

A cidade dorme
com suas feridas expostas.





*   *   *






3 de nov de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Casa de Pedra




      A CASA DE PEDRA
      – PEDRO LUSO DE CARVALHO




Por quanto tempo fiquei ali,
feito estátua, em frente à casa,
entre prédios e palacetes ?

Volto depois de muitos anos
à antiga casa de pedra –
o reino perdido da infância.

Era grande a casa de pedra,
na minha infância tão distante –
palácio de tantos brinquedos.

Ficou pequena, a minha casa
de pedra! Onde a casa de sonhos?
Sumiram juntas, casa e infância?

Lufada de vento oportuna
(sopro de algum anjo perdido)
fez-me entrar na casa de pedra.


Posso, homem de tantos caminhos,
ser de novo aquele menino
dessa casa reino perdido?

Falta-me o fôlego. No peito
garras ferememoção e dor.
Levou o sonho, ave de rapina.





*   *   *




28 de out de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – A Mulher e o Tempo




    
       A MULHER E O TEMPO
         – PEDRO LUSO DE CARVALHO
  



Não me esqueci. Foi em Uruguaiana,
naquela fazenda, há muitos anos.
Chora a mulher, ao despedir-se.
O homem promete um dia voltar.

A mulher mantém-se corajosa.
Aceita dos dias os açoites
para que jamais morra a esperança –
espera que seu homem não demore.

Da ausência, toma nota a mulher,
oanos que passam são anotados,
tudo escreve com miúdas letras
nas margens gastas de um velho livro.

Num dia de vento, sente o engodo,
num momento de meditação,
no seu quarto de tristeza e preces:
não voltará o seu esperado homem.

Naquelas margens gastas do livro,
a mulher não faz mais anotações,
alheia com o passar do tempo –
já não tem mais por quem esperar.

Ficaram no rosto da mulher
as tantas marcas cruéis do tempo.
Da longa espera, o aniquilamento –
nada mais há para ser lembrado.



   
  *   *   *





20 de out de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Abertura de Carnaval







ABERTURA DE CARNAVAL
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Ouço o pandeiro e o tamborim,
dando ao samba majestade.
É o samba com seu esplendor,
escondendo a dor do sambista.

Chega no ritmo o nobre casal,
porta-bandeira e mestre-sala.
Brilha a moça com a bandeira,
a dança  do mestre  ilumina.

Vem atrás (da porta-bandeira
e do parceiro mestre-sala),
uma imensa escola de samba.
Grande demais para um poema.





*   *  *





14 de out de 2017

(Poesia) PEDRO LUSO – Despedida




DESPEDIDA
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Quando parti, dormia a cidade
sob um manto espesso de névoa.
Naquela noite, venci dúvidas,
venci o medo terrificante.

Não a deixei, na noite acordando,
foi comigo, junto ao peito.
Levei junto aquela cidade
para aguçar minhas lembranças.

Na distância, tempo teria
para remoer os remorsos.
Lembro-me, hoje, daquelas ruas,
de seus intrincados segredos.

Estão na mente ruas tantas,
de amigos feitos e sumidos.
Como poderia eu esquecer
as ruas de minha cidade?

Foram as guias dos meus passos,
velhas ruas por onde andei.
Das ruas, não contei os segredos.
Quem teria interesse ouvi-los?



*   *   *