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22 de fev de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – No Decurso da Noite Longa




NO DECURSO DA NOITE LONGA
PEDRO LUSO DE CARVALHO




No decurso da noite longa
ouço o som
da fala do tempo
e o embate do vento
lacrimoso nas paredes da alma.

No decurso da noite longa
lembranças suspiram –
esperam reviver
momentos passados
no tempo, flecha solta do arco.

No decurso da noite longa
o remorso,
ferro em brasa
derretendo as beiras
da alma, em morte lenta.

No decurso da noite longa
sôfrego desejo
que eu tenho
de esquecer males e danos,
saldo de ímpetos incontidos.




*   *   *





14 de fev de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Minha Cidade






A MINHA CIDADE
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Quem poderá medir a infinda tristeza,
por todos sentida, na minha cidade,
ruas e praças com encanto perdido?

Centro da cidade, sinto dor e pena,
as nódoas do tempo urdem tanta feiura.
Não será o centro palco da cidade?

Na manifesta dor, lágrima traiçoeira
pela dor da cidade, que me adotou,
ápice do brilho de um tempo dourado.

Lembranças tenho daquela Porto Alegre,
no centro enfeitada com praças e ruas,
moças nas ruas, passarelas de sonhos.

Alguém me diga onde estão as floridas ruas,
as belas ruas de Mário Quintana,
aonde, em lento andar, tecia poemas.





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3 de fev de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – A Mãe




A MÃE
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Este não é o quartinho,
onde meu filho embalei,
protesta a mãe, voz queixosa.

No breu desta fria cova
sugam-me o sangue morcegos,
lamenta-se a pobre mãe.

Este não é o quartinho
do meu filho que ninei,
queixa-se a mãe angustiada.

No foro, júri reunido,
diz à mãe um homem soturno:
o crime tem o seu preço.

A sentença fere a mãe:
o filho cumprirá pena
tão longe dela, e tão perto.




*   *   *





27 de jan de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Roda de Samba





RODA DE SAMBA
PEDRO LUSO DE CARVALHO



O ritmo do samba chega quente
no quarto desarrumado e pobre,
na tarde em que repousa a morena.

Saudade de sambistas e sambas,
de conquistas muitas lembranças,
no ritmo, as cadeiras rebolando.

Nas rodas de samba ela perdeu
a juventude em requebros e amores
nunca esquecidos, nacos de sonhos.

No quarto violão aviva o samba
e mexe com seu corpo dengoso.
Poderá importar o amor perdido?

O samba vem preencher vazios
na alma da morena que, faceira,
vai à roda de samba gingando.





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20 de jan de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO - Os Segredos da Noite




OS SEGREDOS DA NOITE
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Nesta noite saio de peito aberto,
esperançoso de encontrar alguém
para que possa contar, na conversa,
que comigo levo as mágoas do mundo.

Não me sinto sozinho nesta noite,
vejo tantas pessoas passeando,
umas à procura de diversão
outras desorientadas, sem rumo.

Mas não nego o vazio que me oprime,
a falta de uma mulher de alma santa
para me ouvir, como fazem as mães
atenciosas, quando ouvem seus filhos.




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12 de jan de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Prisioneiro





PRISIONEIRO
PEDRO LUSO DE CARVALHO




Tem-me prisioneiro esta casa
às escuras, no seu denso silêncio,
assustador silêncio dilacera
os meus nervos já tão debilitados.

Fechadas todas janelas e portas
da casa, abri-las inútil esforço,
força não tenho para cadeados
e fechaduras com rigidez do aço.

Pulmões inflados, grito que não sai,
a jugular inchada pelo esforço,
som algum se expande neste vazio –
alguém ouvirá o meu surdo grito?

Portas ou janelas não se abrirão,
terei de aceitar esta minha sina,
prisioneiro da hermética casa –
vivo o que me resta nesta agonia.





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1 de jan de 2018

[Poesia] PEDRO LUSO – Minha Caminhada





MINHA CAMINHADA
PEDRO LUSO DE CARVALHO





Quanto tropeço, quanto sofrimento
quis o destino – nesta caminhada!
Faltam-me números para contá-los.

Foram longas minhas noites insones,
pelos males cometidos na estrada,
pelos muitos reparos que não fiz.

Quantas desculpas terei que pedir?
São muitos os amigos esquecidos!
Fosse meu desejo, como encontrá-los?

Ficou amargura desses meus caminhos,
não perdoei, também não fui perdoado,
vingou-se a estrada tirando-me a alma.






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17 de dez de 2017

[Poesia] PEDRO LUSO – Ano Velho, Ano Novo





ANO VELHO, ANO NOVO
PEDRO LUSO DE CARVALHO



Ano por se findar, na eterna roda,
ano velho rende-se ao novo ano,
já velho, quando dezembro vier.

Dezembro, mês de sôfrego correr
turva-nos a visão, ardil do tempo,
o ano novo fica velho, nós também.

Escondem, essas festas de dezembro,
 o relógio do tempo, sempre exato,
 da Natureza incorruptível servo.

 


*   *   *